Roma, Palazzo del Campidoglio. Comemorações em homenagem a Dom Giussani - Iniciativas em memória de Dom Giussani

Roma, Palazzo del Campidoglio. Comemorações em homenagem a Dom Giussani

08/03/2005

Roma, uma grande paixão
(por Alberto Savorana)

Terça-feira, 8 de março, no Palazzo Del Campidoglio, em Roma, foi realizada uma comemoração em homenagem a Dom Giussani, que contou com a presença do vice-prefeito Garavagli, do prefeito Veltroni, do senador Andreotti, do cardeal Bertone e de padre Julián Carrón. Alguns apontamentos.

Maria Pia Garavaglia
Dom Giussani está conosco e nós queremos, neste lugar solene, porque é a casa dos romanos, tributar-lhe uma honra especial. Eu pertenço à geração de GS e, para nós, foi uma bela experiência porque com Dom Giussani éramos homens e mulheres e isso também não foi fácil para Dom Giussani. Seus meninos e suas meninas, através dele encontraram Alguém mais importante, que não se importava com a diferença de gênero (nós sequer usávamos essa palavra, porque naquele tempo ainda se usava a palavra “sexo”). Era um homem que não nos deixava hostis, que não nos deixava obcecados. Foi para muitos, um amigo, um mestre, um padre, um cidadão exigente, talvez porque verdadeiro sacerdote. Até na última entrevista repetiu para não ficarmos tranquilos: não é podemos ficar tranquilos se o mundo sofre, se o vizinho sofre, se o colega de estudo sofre. Em um dia como este, na presença do prefeito, que insistiu que era importante lembrar Dom Giussani na Protomoteca, acontece esse evento muito simples, simples como – na sua complexidade teológica – conseguia manifestar-se a nós. Na Duomo ouvi, nas coisas que padre Julián disse e como as disse, o respiro e o estilo de Dom Gius. Que a lembrança de hoje seja um ulterior tijolinho da construção daquele Homem a quem ele olhava com tanta paixão.
E como amava a beleza, a arte, a cultura, vocês devem se lembrar que para rezar a Nossa Senhora, usava exatamente uma poesia: o hino à Virgem, de Dante Alighieri.

Walter Veltroni
Falar de Dom Giussani significa falar de uma das figuras de relevo do catolicismo, não só italiano, do último século. Se fosse possível contar, seriam milhões os jovens que através dele encontraram uma fé à altura dos seus sonhos, de suas expectativas e sobretudo de seu compromisso social. Essa união entre fé e vida, entendida também como vida pública, foi e é, por muitos motivos, acredito, um aspecto fundamental da experiência do ensinamento de Dom Giussani.
Dom Giussani tinha uma grande paixão por tudo o que é humano. Vocês sabem melhor do que eu como foi profícua a descendência de Dom Giussani, quantas gerações cresceram na convicção de ficar firmes, antes de tudo, na fé e no seu testemunho. É importante notar que, porém, isso não significou a negação da sociedade e de suas imperfeições: a participação na busca de novas formas de cultura comunitária estava na base do seu ensinamento e da sua atividade desde os anos em que CL nasceu, quando, em um tempo difícil e intenso, Dom Giussani teve o mérito de fazer com que muitos jovens se apaixonassem pela política e fugissem da violência na qual era fácil cair naquele tempo.
Dom Giussani tinha plena consciência da dimensão do fazer concreto, do agir socialmente, que não está em contradição com a dimensão espiritual e religiosa. Em sua última entrevista, disse: “Sempre procurei viver a vida nas suas exigências pessoais concretas, na sua aplicabilidade como resposta a necessidades reais”. Tenho convicção de que isso é extremamente importante: ser forte na própria identidade para ser capaz de se abrir à alteridade, em uma lógica de interdependência e de inter-relação. E se este é o objetivo, então não vejo obstáculos, não vejo divisões, que não devem e não podem existir, nem entre as culturas diferentes, muito menos entre fé e razão.
Quando um fundador morre, um movimento tem diante de si uma passagem difícil, além de dolorosa: é como uma cesura, é como o início de uma nova época, é como a inquietude – e às vezes o embaraço – de uma nova viagem que começa. Eu desejo que tenham toda a força necessária, aquela força que encontrarão – como sempre – no ensinamento de Dom Giussani, nas palavras de quem, certa vez, disse: “Não se segue uma pessoa, mas uma experiência de vida. Quem a propõe pode ser uma pessoa, mas quando a pessoa desaparece, a experiência – se compreendida nos seus fatores e valores – permanece, e certamente a experiência de Dom Giussani, permanece”, para vocês, e acredito que para todos.

Giulio Andreotti
Por que, quando vivo, Dom Giussani nem sempre foi compreendido por todos, e no entanto foi um grande ponto de referência e continua sendo, quer dizer, começou a sê-lo ainda mais? A meu ver, porque o segredo do seu apostolado foi o de percorrer aquilo que, depois, o Santo Padre expressou no convite a não termos medo, o convite a não sermos conformistas – ele disse: “ Não se conformem” – e isso também valia para os confrontos da reação a um momento também fisicamente derivado de muita juventude, que gerava violência – que depois desembocariam sucessivamente em fatos extremamente graves – e se manteve firme. E este ensinamento, ao primeiro grupo de seus jovens alunos, como professor de religião no Berchet, foi exatamente o de não ter medo, de fazer um discurso de maneira efetiva, de recuperar um diálogo que parecia não existir mais, e também criar dentro da estrutura dos católicos italianos um modelo válido.
Hoje, vivemos uma crise também de caráter cultural porque a modernidade é concebida como uma falta de regras ou, exatamente, a exaltação do que não é natural como sendo natural, como norma, tanto é verdade que depois, quem é normal é considerado, muitas vezes, quase como um anormal. Os antídotos contra este modo de viver não só a vida religiosa, mas a vida de todos os dias, que Dom Luigi soube ditar no início e depois soube alimentar com uma expansão extraordinária, são, a meu ver, a sua herança. (...) Um momento em especial me impressionou muito: fomos com Dom Giussani a La Thuile no verão de 94 e fiquei impressionado com o modo desenvolto, quase fraterno, com que Dom Luigi se relacionava com todos, com as famílias dos seus, que é outra característica de seu apostolado: a maneira de se ocupar não só com os jovens, mas também com as famílias. Ainda agora, quando vemos... também aqui em Roma, quando assistimos as missas de CL, vemos jovens com suas esposas e seus filhos, todos os anos vemos batismos, crismas... bem, é uma Igreja viva. Talvez não figure em nenhuma estatística, porém mostra o que é o fascínio. E não é possível falar eficazmente aos jovens fazendo apologia a um passado, não é possível falar-lhes fazendo discursos formais. É preciso entrar em sintonia com a mentalidade dos jovens e também com a exposição a reações impulsivas que os jovens, hoje, frequentemente têm. Há uma modernidade que não envelhece: o tempo vai passar, e quando se falar destes decênios, da modernidade verdadeira, não será possível deixar de se referir a Dom Giussani.

Tarcisio Bertone
Se vivemos seguindo Cristo, vivemos melhor, é como viver cem vezes mais. Se Cristo é o critério explicativo do real, tudo é envolvido e transformado e nos abre a toda realidade, não nos fecha. Há, muitas vezes, como sabemos, um dualismo não só entre fé e razão, mas entre fé e realidade social, um dualismo que é preciso superar, que é preciso vencer: uma fé que não investe a totalidade do sujeito não pode não se tornar abstrata. “Quando encontrei Cristo, descobri-me homem”. Parece-me que nesta afirmação está a intuição mais profunda de Dom Giussani, que eu defini como sendo o Dom Bosco do século XX, porque inventou um método formidável para levar os jovens a Cristo, àquele encontro decisivo, revolucionário que traz unidade para a vida. A fé não deve ser relegada ao âmbito privado, a fé é um fato público, é a minha vida. Coloquei como título dessa breve colocação: “A lição de Dom Giussani: cidadãos e cristãos”, cidadãos enquanto cristãos, participantes da população evangélica e da população civil.
Quem ouviu algo do catecismo que é ensinado aos jovens nas paróquias italianas sabe que – diria exatamente sob o impulso de Dom Giussani – o cristianismo é um acontecimento mais forte do que qualquer interpretação, tudo se joga, gira em torno do encontro com Jesus. Não se trata mais, portanto, de uma abordagem doutrinária e tomisticamente dedutível, mas os meninos, os jovens e também os adultos, são introduzidos na fé através de uma abordagem experencial e indutiva. Este é o ponto essencial da intuição de Dom Giussani, que por sucessivos movimentos de emoções e de eventos tornou-se cultura.
Então, reconhecer-se no acontecimento de Cristo, como sugere Dom Giussani, quer dizer superar os condicionamentos, a falsa leitura de uma divisão entre fé e vida, entre fé e razão, quer dizer restabelecer uma continuidade, muitas vezes interrompida, sem ser mais preciso justificar e dividir para ser cristãos. Dom Giussani fez crescer e trilhar o caminho de unidade. Esperamos que um outro mestre do pensamento também abra o cadeado que impede aos cristãos fazer uma interpretação menos rígida do conceito de laicidade, dentro do qual está a redução da fé a simples convicção pessoal, mais uma vez às catacumbas. Dom Giussani foi um grande educador à fé viva, que opera através da caridade, propôs um cristianismo de alto perfil e de grande empenho. Dom Giussani convenceu multidões de jovens a colocar Cristo no centro de suas vidas e a percebê-Lo como presente, verdadeiro companheiro de viagem no percurso fatigoso de crescimento em direção a uma humanidade nova. É uma herança que ainda pode contagiar muitos jovens, um projeto incompleto que é confiado a nós hoje e amanhã, até o fim dos tempos. Com ele, com o seu olhar, Jesus nos olha e nos diz: “Não tema, pequeno rebanho!”, mas vejo que aqui não há um pequeno rebanho!

[Publicado em Tracce, abril de 2005, pág. 25 e seguintes)

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