Olhar com simpatia o humano

Encarte
Julián Carrón

Notas das sínteses de Julián Carrón no encontro de responsáveis dos universitários e na Assembléia de Responsáveis de CL. Milão, 6 e 9 de fevereiro de 2007

Eu lhes proponho que retomemos juntos a Escola de Comunidade (L. Giussani, “Passos de experiência cristã”. In: O caminho para a verdade é uma experiência. Companhia Ilimitada, São Paulo 2006). Isso nos permitirá fazer uma verificação da maneira como a estamos trabalhando, levando em conta o que Dom Giussani diz sobre a Escola de Comunidade – ela “é o instrumento principal da vida nova, da maneira nova de buscar a finalidade do eu novo” (“Escola e método”, nesta edição, à p. 1) – e o método que a Escola de Comunidade atualmente nos impõe. Quando me preparava para a Assembléia de Responsáveis, reli o texto da Escola de Comunidade que era o seu tema, e reler o texto me corrigiu mais uma vez quanto à maneira como eu a vinha trabalhando. Digo isso como resultado do meu trabalho pessoal. Realmente, meditar a Escola de Comunidade é uma comparação constante que corrige, pois estamos diante de uma presença que conta uma experiência humana. Constantemente, a pessoa tem a possibilidade de se expor a uma comparação com essa presença que se documenta nas páginas da Escola de Comunidade.

No início do segundo capítulo (“O encontro com Cristo”), Dom Giussani diz: “O encontro histórico com este homem constitui o encontro com o ponto de vista resolutivo e esclarecedor da experiência humana” (p. 113). Cristo resolve, ou seja, responde à exigência do coração, à exigência da minha humanidade, e por isso a esclarece. Sendo que é resposta à exigência do meu coração, esclarece de verdade o que eu tinha confusamente como desejo. É como quando você encontra a pessoa amada e diz: “Agora eu entendo o que estava esperando”. Antes, era como uma coisa sem rosto: eu esperava alguém. Quando encontro, entendo, tudo se esclarece. Cristo resolve e esclarece porque corresponde. Cristo é “o único gênio que captou bem todos esses fatores humanos, que os fez emergir, que revelou o seu sentido definitivo” (p. 113). Com esse olhar, com esse ponto de partida (que aparece no segundo capítulo, no qual se fala do acontecimento cristão), voltamos ao início da Escola de Comunidade, onde Dom Giussani pergunta: por que os primeiros O sentiram como o ponto esclarecedor e resolutivo da experiência humana? Por que foi que O seguiram e, seguindo-O, viram com maior clareza o que eles eram e o que Ele era? Porque “Cristo era o único em cujas palavras sentiam que toda a sua experiência humana era compreendida, e as suas necessidades eram levadas a sério e trazidas à luz naquilo em que eram desconhecidas e confusas” (p. 103).

As necessidades desconhecidas e confusas dos primeiros adquirem clareza no encontro. Portanto, o que fica claro? A humanidade deles se descobre “totalmente carente” (p. 104). Foi isso que começou a me iluminar. É aqui que podemos ver se estamos trabalhando mesmo a Escola de Comunidade: o problema não é se a pessoa sabe repetir tudo, mas se, desde quando começou esse trabalho, nunca se surpreendeu “sentindo-se totalmente carente”. O teste é esse, e não a pessoa conseguir repetir todas as palavras. Digo isso em primeiro lugar para mim. Um dia, durante uma Escola de Comunidade, para responder a uma pergunta que havia surgido, procurei explicar o que Dom Giussani diz na Página Um de Passos de março (“A familiaridade com Cristo”), a respeito da diferença entre saber e conhecer. Respondi dando um exemplo pessoal. Eu sabia, como muitos de vocês, o que lemos no capítulo X de O senso religioso: “Eu sou ‘Tu-que-me-fazes’” (L. Giussani. O senso religioso. Nova Fronteira, Rio de Janeiro 2000, p. 150). Mas como “saber” isso é diferente de dizer “eu” com a consciência contida nessas palavras! Se alguém nos faz uma pergunta a esse respeito, podemos até repetir: “Eu sou ‘Tu-que-me-fazes’”, e depois continuar a dizer “eu” como antes. Eu sabia o que significava “eu sou ‘Tu-que-me-fazes’”, mas não dizia “eu” com aquela consciência. O que me permitiu começar a coincidir com essas palavras? O fato de ter lido esse parágrafo durante anos, até que ele se tornou meu, até que comecei a me surpreender dizendo “eu” com aquela consciência. Pois bem, o conhecimento de que Dom Giussani fala no texto de março nada mais é senão essa familiaridade. O conceito bíblico de conhecimento não equivale a “saber”, não é apenas saber, mas é uma familiaridade com o dado, graças à qual esse dado se torna meu, uma expressão minha. Todos nós sabemos muito bem a diferença que existe entre saber a definição (“Eu sou ‘Tu-que-me-fazes’”) e dizer “eu” coincidindo com essas palavras.

Não podemos dizer que conhecemos a Escola de Comunidade sem que apareça, sem que a certa altura desponte essa familiaridade com aquilo que dizemos. Assim, comecei a reler a Escola de Comunidade me perguntando: afinal, eu sei isto aqui ou o conheço? Pois é aí que começa o trabalho. Não basta que eu encontre Cristo; se fosse assim, Dom Giussani teria parado nesse ponto. Em vez disso, logo depois de ter dito que “Cristo era o único em cujas palavras sentiam que toda a sua experiência humana era compreendida, e as suas necessidades eram levadas a sério”, ele afirma: “Para encontrar Cristo, devemos [...] colocar seriamente o nosso problema humano” (p. 104). É como se tudo começasse nesse momento. Justamente pelo fato de Cristo ter levado a sério a minha humanidade, eu posso – agora sim, pois já não tenho medo dela – encará-la de frente, posso realmente começar a colocar o meu problema humano. E isso não é porque sou filósofo, ou por uma introspecção que o problema humano me impõe, mas porque Cristo é o ponto de vista resolutivo, porque Ele fez vir à tona com clareza aquela necessidade que era confusa. Agora posso começar a colocar de modo completo o problema humano. A questão não se esgota, o encontro não põe fim ao problema humano. Ao contrário, é com ele que começa realmente a aventura. Se não é assim, se vivo o encontro sem conexão com o problema humano, no final o que fica é uma ideologia, um saber que não entra no mérito da questão humana; pois não me serve, e com o tempo Cristo não me interessa mais.

O que significa colocar o problema humano? A primeira coisa é “olhar com simpatia o humano que está em nós, [...] levar a sério tudo o que experimentamos, tudo, colher todos os aspectos, buscar todo o seu significado” (p. 104). Três vezes, em duas linhas, Dom Giussani sublinha a palavra “tudo”. Eu comecei a ver essas afirmações como outros testes. Pois eu entendo se faço Escola de Comunidade não quando leio e repito essas coisas, mas quando me surpreendo olhando com simpatia o humano que está em mim. Eu pergunto a vocês: desde que vocês começaram a trabalhar a Escola de Comunidade, se surpreenderam olhando com simpatia o humano? Ou seja, não apenas repetindo frases, mas olhando com simpatia o humano que está em vocês? Dom Giussani é tão genial, que introduz no percurso o teste com o qual podemos verificar se estamos fazendo o trabalho de Escola de Comunidade, um trabalho que não pode ser resumido a um simples discurso. A Escola de Comunidade é uma experiência, e não apenas debater sobre um discurso. É aí que está o teste: que eu comece a olhar com simpatia a minha humanidade; é isso que Cristo torna possível. Do contrário, eu não olho para a minha humanidade, simplesmente a censuro.

Sendo assim, o encontro com Cristo não censura o humano, mas é justamente o que torna possível olhar também para a escuridão do meu coração, olhar com simpatia todo o humano que está em mim. A partir daqui, começo a “observar a experiência com olhos abertos, e a aceitar o humano em tudo quanto ele exige” (p. 105), e isso me põe numa atitude de espera. Nós já nos surpreendemos nessa atitude? Quem já começou a olhar com simpatia a sua humanidade? Quem já notou alguma novidade na maneira de olhar para si mesmo? É preciso começar a interpretar as afirmações da Escola de Comunidade como sinais, em vez de entendê-las como partes de um discurso; sinais que indicam se estamos fazendo a experiência de que se fala, se aquilo que fazemos é simplesmente um saber ou uma familiaridade.

Repassemos muito rapidamente esses sinais.



Primeiro sinal: a impotência. “O sentimento de impotência acompanha cada experiência séria de humanidade” (p. 105). Se a pessoa começa a olhar com simpatia e a empenhar-se seriamente com a própria humanidade, descobre essa impotência: cada experiência séria de humanidade a faz vir à tona. Em dois meses de Escola de Comunidade, nós alguma vez já sentimos essa impotência? Se o sinal de que nós fazemos uma experiência séria de humanidade é que sentimos essa impotência, o fato de não a percebermos significa que temos ficado na superfície. Isso quer dizer que podemos fazer um monte de coisas, participar de um monte de atividades, mas não “estamos” ali. Dá para ver que sentimos realmente essa impotência quando temos consciência de que o nosso problema fundamental não pode encontrar resposta em nós ou nos outros. Muitas vezes, nós pensamos: “É a união que faz a força; se estivermos juntos venceremos a nossa impotência!”. Essa imagem de companhia evidencia que não entendemos do que estamos falando. Nesse caso, é normal que nos decepcionemos com a companhia. Mas, se isso acontece em relação à companhia, acontecerá depois também em relação ao casamento, aos relacionamentos. Como se houvesse alguém que pudesse resolver a nossa impotência! Eu começo a entender o que significa a impotência quando me dou conta de que a minha exigência não pode encontrar resposta nem em mim nem nos outros.

“O sentimento da solidão nasce exatamente no coração de cada empenho sério com a própria humanidade” (p. 106). Contaram-me de uma pessoa que começou a fazer a Escola de Comunidade há alguns meses e que, depois de ter lido essas páginas, falou na reunião, dizendo: “Como é difícil dizer essas coisas a nós mesmos, e ainda mais aos outros: parecem um limite, uma “roubada”, porque a pessoa tem de estar sempre à altura!”. E acrescentou: “Agora eu não me sinto mais sozinha, pois estou diante de uma proposta”. Ela não conhece quase ninguém, por isso não pode reduzir a companhia a algo sentimental. Justamente porque o problema da solidão é a impotência, o que resolve a sua impotência é o fato de estar diante de uma proposta. Vocês entendem a diferença entre isso e a maneira como nós normalmente concebemos a companhia e aquilo que resolve a solidão? Nós reduzimos a companhia a uma questão sentimental.

Quando trabalhamos bem a Escola de Comunidade, ela nos corrige – no sentido profundo do termo – em muitas coisas e nos poupa muitos problemas. Mas, se não entendemos tudo isso, continuamos a fazer um monte de coisas, mas, justamente porque não entendemos, começamos a percorrer o caminho errado.



Segundo sinal: a comunidade. “Alguém que descubra verdadeiramente e viva a experiência da impotência e da solidão não está só” (p. 106). Para nós, enquanto postura, muitas vezes é o contrário. Quando desabafamos com o outro, quando o nosso humano sobe das entranhas, o que nos pomos a dizer é exatamente o contrário: “Estou sozinho diante disso ou daquilo”. Mas, se “alguém que descobre verdadeiramente e vive a experiência da impotência e da solidão não está só”, existe então algo que precisa mudar no nosso universo de membros de Comunhão e Libertação. E qual é o sinal dessa mudança? O fato de que eu me sinto próximo dos outros sem cálculos e sem pretensões. Quantas vezes, nos últimos tempos, vocês se sentiram próximos dos outros “sem cálculos e sem prepotência e, ao mesmo tempo, sem passividade” (p. 107)? “Sem cálculos” é o contrário do fazer pouco-caso, ou seja, daquela postura em que, para não cair na pretensão e no cálculo, eu não estou nem aí, eu me torno passivo. Não! Sem cálculos, nem passividade. Eu lhes peço que vejam quantas vezes Dom Giussani usa a palavra “empenho”. Primeira: “O sentimento da solidão nasce exatamente no coração de cada empenho sério com a própria humanidade” (p. 106). Em seguida: “Um homem pode dizer-se empenhado seriamente com as suas experiências humanas somente quando sente esta comunidade com os homens” (p. 107); ou seja, não quando faz alguma coisa para se sentir próximo de fulano ou beltrano, quando produz esse sentimento de proximidade como um esforço, mas quando se surpreende próximo do outro porque experimenta a humanidade que tem em si mesmo. “Quanto mais me empenho com a minha humanidade...”: ninguém está dizendo que devemos “fazer” a comunidade. Não! Devemos viver, nos empenhar com a nossa humanidade, pois é isso que faz com que nos sintamos próximos dos outros sem cálculos e sem prepotência, que faz com que sintamos essa “comunidade” com os homens. Muitas vezes, sendo que não entendemos isso, a maneira como estamos juntos é arrogante e presunçosa: não sentimos a necessidade dos outros, não sentimos os outros como parte de nós, como parte do nosso humano, mas como gente para gerenciar sei lá o quê.



Terceiro sinal: a autoridade. Autoridade não são, aqui, aqueles que têm uma função, mas pessoas que de fato “vivem a nossa experiência mais intensamente, com maior empenho” (p. 108). Pela terceira vez, aparece o termo “empenho”. O homem que escreveu essas páginas era um homem assim: o encontro com Cristo não o havia esvaziado, encolhido, mas tinha feito virem à tona com clareza todos os fatores da sua humanidade, até chegar a essa intensidade de empenho. Muitos de vocês não o conheceram, mas quem escreveu essas páginas era assim, e não as poderia ter escrito se não tivesse feito experiência disso. Nelas podemos ver o testemunho de uma humanidade mais intensa, a que brota do encontro. Não é que, já que havia encontrado Cristo, então tudo tinha acabado. Não! Dom Giussani era um homem que o encontro com Cristo, justamente, havia feito empenhar-se com a própria humanidade, e que por isso pôde olhar com simpatia o humano: Cristo não foi o álibi para não fazer mais nada. Seria como se alguém me dissesse: “Já encontrei a pessoa que eu amo, agora não me empenho mais”. Nesse caso eu diria que não é verdade que você a encontrou; pare de dizer mentiras: fica evidente, não tanto que você não é uma “boa pessoa”, mas que não encontrou aquela que você ama. Quem encontra a pessoa amada se empenha! Se você não se empenha, ou é porque não a encontrou ou é porque você é uma pessoa mesquinha. Não existe alternativa: ou você não a encontrou ou é um imoral, alguém que resiste, porque o encontro não deixa você ficar indiferente.

“A autoridade surge, pois, como riqueza de experiência que se impõe aos outros, gera novidade, maravilhamento” (p. 109). Que autoridade você reconheceu nestes tempos? Quanto mais você vive a sua humanidade, mais descobre a autoridade. De fato, a autoridade é aquela pessoa que está mais empenhada com o próprio problema humano, e não existe autoridade que não seja assim. Como é que vocês têm exercido a sua responsabilidade? Procurando empenhar-se com a sua humanidade, procurando viver a sua experiência humana em primeira pessoa, com toda a sua força, ou substituindo a falta dessa humanidade pelo autoritarismo da função, pondo toda a sua autoridade em “comandar” alguma coisa? Pode ser mais fácil, mas é inútil. Tudo isso nos julga. Mas o que me importa aqui não é o erro, esta não é uma questão de moralismo; o que me importa aqui é que, se não vivemos assim, com o tempo Cristo não nos interessará mais, e nós ficaremos sós como cães.

A autoridade não é quem me poupa de alguma coisa, mas aquele que vive mais empenhado com a sua experiência humana, que sabe o que é viver como homem e não cede à tentação de me poupar disso. Mais ainda, nós estamos aqui graças ao encontro que fizemos, porque houve alguém que despertou mais uma vez em nós o drama da nossa vida. A maior autoridade é aquela pessoa que, justamente porque testemunha o que é ser homem, desperta mais em nós a pergunta, desperta mais o nosso coração. A autoridade não é aquela pessoa que nivela tudo de uma tal maneira que tudo acaba entrando na organização. Se concebemos o Movimento como “organização”, com o tempo ele não interessará mais a ninguém, nem a nós mesmos, pois o eu, o eu enquanto dado, precisamente, é exigência de totalidade: ou encontra algo que responde e desperta mais uma vez essa exigência de totalidade, ou não poderá ficar interessado e ser atraído. O coração é tão objetivo, que, se não encontramos o que lhe corresponde, nada nos prende nem nos atrai o bastante. O moralismo não é suficiente.

Dom Giussani, em 1982, nos primeiros Exercícios da Fraternidade (cf., “A familiaridade com Cristo”, in Passos março de 2007), impressionado com o fato de ver bem ali na sua frente os seus primeiros alunos, cita uma frase de João Paulo II que, por si só, é impressionante: “Não haverá fidelidade [...] se não se encontrar no coração do homem uma pergunta, para a qual somente Deus é a resposta”. O problema está todo aqui. Ele não diz: “Não haverá fidelidade se vocês não forem boas pessoas, se não forem coerentes”. Não! “Não haverá fidelidade se não se encontrar no coração do homem uma pergunta, para a qual somente Deus é a resposta.” A fidelidade está ligada a uma pergunta para a qual só Cristo é a resposta, ou seja, não está ligada ao problema da ética, mas ao problema da antropologia, do coração. Por isso, ou nós ficamos na verdadeira questão do viver, ou cedo ou tarde nem nós mesmos seremos fiéis. Não podemos pôr nenhuma esperança numa fidelidade que se baseia somente na nossa capacidade de coerência.



Quarto sinal: a oração. As nossas experiências, levadas realmente a sério, exigem inexoravelmente algo além delas mesmas, ou seja, têm uma autêntica dimensão religiosa, não acrescentada a elas como um rótulo, mas que surge da própria experiência. Por isso, Dom Giussani diz: “Reza aquele que é mais realista” (p. 111), reza aquele que considera mais seriamente a sua experiência humana. Você quer saber se leva a sério ou não a sua experiência humana? Veja se rezou e como rezou, se teve necessidade de gritar, de pedir. De que maneira? Não como parte do programa de CL, mas como algo que nasce das entranhas da sua necessidade. Quantas vezes a nossa oração brotou da nossa humanidade exigente, levada a sério, e quantas, em vez disso, de um hábito ou de um ritual (de forma tal que, quando o ritual vem a faltar, não se reza; por exemplo, quando estamos no período das provas na faculdade ou quando chegam as férias, sendo que não temos mais o ritual, não rezamos, a nossa humanidade fica em stand by)?



Agora que começamos a entrar no novo capítulo (“O encontro com Cristo”), é preciso retomar a introdução de Na origem da pretensão cristã (Nova Fronteira, Rio de Janeiro 2003). Não é que, depois de ter descoberto o humano, nós chegamos a Cristo, viramos a página, já superamos a premissa, e podemos começar a falar de Cristo. Não! Dom Giussani não fala do humano porque “tem” de fazer isso (portanto, deve-se falar primeiro do problema humano, e depois de Cristo), mas porque, para descobrir quem é Cristo, é preciso levar a sério o humano. De fato, Cristo se propõe como resposta ao humano. Se você quer seguir adiante na busca do que é Cristo, então não pode encerrar a questão do humano e começar a “falar” de Cristo, pois Cristo vem ao encontro justamente do seu problema humano. Quanto mais a pessoa sente e está empenhada com a própria humanidade, mais será capaz de perceber que Cristo vem ao seu encontro agora. “Não seria possível dizer Cristo sem antes nos darmos conta da natureza daquele dinamismo que faz com que o homem seja verdadeiramente homem. Com efeito, Cristo se propõe como resposta àquilo que ‘eu’ sou e apenas uma tomada de consciência atenta, mas também terna e apaixonada, de mim mesmo pode fazer com que eu me escancare e me disponha a reconhecer, admirar, agradecer, e vivenciar Cristo. Sem essa consciência, até mesmo o nome de Jesus Cristo não passa de um simples nome” (cf., p. 11).

Sendo assim, nós começamos esta nova parte da Escola de Comunidade sem deixar para trás o que já trabalhamos. É uma outra questão decisiva. Freqüentemente, o senso religioso para nós é uma espécie de premissa, tanto assim que muitos dizem: “Se nós já somos cristãos, por que é que voltamos ao problema humano, por que é que voltamos ao senso religioso?”. Mas é justamente Cristo quem volta a despertar o humano: não o achata, não o encolhe, desperta-o novamente, para continuar a responder. Só quem leva a sério essa sua humanidade poderá continuar a grande aventura do reconhecimento de Cristo. Do contrário, pensaremos que já sabemos, quando na realidade não sabemos nada. É justamente porque você continua a desejar ver a pessoa amada que o fato de voltar a vê-la pode surpreendê-lo. Não é que isso encerre a questão, pelo contrário, a gente deseja que essa questão nunca se encerre; no dia em que se encerrar, estará tudo acabado, será o túmulo do relacionamento, da mesma maneira como é o túmulo da fé: a pessoa poderá continuar a conservar ainda algum ritual, mas a fé deixará de ser interessante para a vida. Este é o problema da fé: Cristo continuará a interessar se a pergunta continuar a existir. “Haverá fidelidade se houver uma pergunta, para a qual Cristo é a única resposta.”

Ao enfrentar o novo capítulo, comecemos a ler as passagens do Evangelho que lá são indicadas, comecemos a ler tudo o que aconteceu, e a reconhecer o que acontece hoje entre nós: é a única possibilidade de continuar esta aventura do conhecimento de Cristo. Será preciso, ao mesmo tempo, recuperar as duas questões de método indicadas por Dom Giussani em Na origem da pretensão cristã: para os discípulos, aquele encontro se tornou um caminho da certeza, pois a “convivência” com Jesus ao longo do tempo e a “atenção aos sinais” permitiram a eles chegar cada vez mais à pergunta que a convivência com Ele fazia explodir: “Quem é este?”, e que os impelia a procurar uma resposta. Essa é a aventura necessária para que se possa continuar este caminho da certeza que vislumbramos nos Exercícios (cf. De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde a si mesmo? Suplemento de Passos nº 80, março de 2007). Para fazer esse percurso, não deixemos que os Exercícios caiam no esquecimento. Trabalhemos sobre a Escola de Comunidade, portanto, usando o que dissemos nos Exercícios e toda a riqueza do que estamos vivendo.

(Passos n. 81, abril de 2007)