Fé ontem e hoje - Textos de Luigi Giussani

Fé ontem e hoje

Luigi Giussani Passos

01/03/2008 - Página Um

Notas de uma palestra de Luigi Giussani na igreja de Santo Alexandre, em Milão, a 26 de novembro de 1987

1. Escolhidos para uma tarefa
Pode surpreender que, justamente no Sínodo 1, a tarefa de encontrar uma definição tranquila do que é o leigo na Igreja tenha dado margem a grande dificuldade. Mas a meu ver isso deriva do fato de que uma verdadeira definição do leigo é extremamente simples: o leigo cristão nada mais é que um homem batizado. Era por isso que o Senhor Preboste dizia há pouco, com razão, que Santo Alexandre era um leigo e sua grandeza está em ter testemunhado a fé. De fato, o Batismo assinala, entre os homens, aqueles que Deus escolhe para que conheçam a Sua presença no mundo, para que conheçam o opus Dei, a grande obra que Ele pretendeu realizar dentro da história para a salvação do homem.
Diz o início do capítulo 17 do Evangelho de São João, que contém a última oração de Jesus antes de ir para o Getsêmani: “Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique a Ti, e, porque lhe deste poder sobre todo homem [sobre todos os homens], ele dê a vida eterna a todos aqueles que lhe confiaste. Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e Àquele que tu enviaste, Jesus Cristo” 2. Chegou a hora. E desde então essa frase indica cada dia da história que passa, pois a definitividade do tempo começou com a glorificação de Cristo ao ressuscitar. A morte e a ressurreição dão início à era nova que nós podemos reconhecer e gozar como um penhor – diz a liturgia –, à espera da manifestação final. Mas um penhor é da mesma natureza da promessa inteira. Por isso, a vida do cristão é como o grande realizar-se do acontecimento de Cristo, e é morte e ressurreição.
Mas, então, que significa, como virtude, o tempo daqueles que foram confiados a Cristo? Cristo tem poder sobre todos os homens – como Ele diz de si mesmo nesse início do capítulo 17 –, mas dá a vida eterna àqueles que o Pai lhe confia. Esse poder sobre todos os homens se realiza mediante uma escolha contínua, a escolha que é marcada pelo Batismo, analogamente ao que aconteceu, no passado, como lemos no Deuteronômio, quando Deus disse: “Todos os povos da terra me pertencem, mas tu serás o povo de Israel, a minha particular herança” 3.
Cada cristão, cada batizado, portanto, traz em si o destino a que todos estão destinados, mas foi escolhido: é cristão porque foi escolhido para começar a “compreender”, dentro do tempo e do espaço, neste vestíbulo da história, neste vestíbulo da eternidade que é a história. O conceito de escolha é uma premissa inevitável para falar de fé. Algo que diremos depois talvez confirme essa observação. Mas quero sublinhar que o conceito de escolha é uma preliminar da ideia de fé, precisamente porque a fé não é o resultado de um teorema ao qual todos podem chegar. É, como diremos, uma graça. Já que terei de sublinhar isso depois, eu jamais o teria mencionado em primeiro lugar, se não fosse o fato de o conceito de escolha talvez ser a categoria mais esquecida pela consciência cristã. No entanto, essa predileção, essa escolha, é a categoria suprema do amor de Deus. É na escolha que o amor se explicita e se documenta. Por outro lado, essa obliteração, esse esquecimento, é quase uma conveniência; é uma conveniência banal. Em primeiro lugar, não há nada mais contrário à racionalidade, tal como a cultura moderna e contemporânea a propõe, não há nada mais contraditório aos princípios da cultura moderna e contemporânea, que o conceito de escolha. E, em sua aplicação política ou sociopolítica, não existe nada mais contraditório ao conceito de democracia que a ideia de escolha. Isso, portanto, já nos põe numa situação embaraçosa, do ponto de vista social.
Mas a conveniência desse esquecimento talvez esteja, mais intensamente, no fato de que fomos escolhidos para uma missão. Deus escolhe para uma tarefa e uma missão. E uma tarefa e uma missão, obviamente, representam uma grande obrigação em nossa vida. Aliás, nossa vida será julgada pelo cumprimento ou não dessa obrigação: “Se alguém se envergonhar de mim diante dos homens, eu também me envergonharei dele diante de meu Pai” 4. É no testemunho que está o conteúdo último do juízo. E é bastante significativo que esse conteúdo último do juízo, apontado como a realização do testemunho, não possa ser entendido de modo descontínuo ou, pior ainda, contraditório a uma outra imagem que Cristo nos deu do fim do mundo, no capítulo 25 do Evangelho de São Mateus 5, a parábola das ovelhas e dos cabritos, a grande divisão entre bons e maus. O critério, o conteúdo, parece ser diferente: “Vinde, benditos, pois eu estava com fome e me destes de comer”. No entanto, há uma palavra que identifica o primeiro conteúdo (testemunho) com esse segundo (partilha da necessidade dos homens), e é a palavra “caridade”. Ou seja, a escolha que o Senhor fez de nós, ao nos confiar a Cristo, diferentemente da esmagadora maioria dos outros, essa escolha tem como significado supremo o reconhecimento de Cristo, reconhecimento no sentido pleno da palavra, aquele reconhecimento que traz a gratidão, que arrasta consigo a gratidão e a afeição e, portanto, uma maneira de viver a vida em conformidade com isso, uma moral. O capítulo 25 do Evangelho de São Mateus assinala a condição mais evidente dessa moral, seu conteúdo mais evidente: o amor pelos outros.

2. A fé: reconhecimento de uma Presença
Tendo dito o que eu desejava dizer sobre a ideia de escolha, vejamos agora os aspectos mais elementares, mas também mais importantes, a meu ver, do conceito de fé. Fomos escolhidos para crer. Sabemos muito bem que o gesto com o qual o Pai nos confiou a Cristo, o Batismo, o Sacramento, é um gesto misterioso que realiza a sua força de mudança num nível do qual nossa experiência não pode participar. “Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito”, dizia Jesus a Nicodemos. Por isso, é como o vento, “tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai” 6. Você pode julgá-lo pelo efeito, pelos resultados. O fato de termos sido chamados a crer nos obriga em primeiro lugar a ter uma ideia clara daquilo a que somos chamados. Se, no Batismo, a virtude da fé, a energia capaz de crer, nos é dada como potencialidade – não imediatamente visível, sensível, perceptível, mas algo que, na educação ou no desenvolvimento da vida, demonstra a sua presença (“tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai”) –; se a escolha, termos sido escolhidos para crer, no Batismo, significa que uma potencialidade nova se posiciona em nossa natureza, em nosso ser, então, à medida que a vida cresce, tornando-se consciente, essa virtude inicial se transforma em conteúdo de gesto experiencial, de gesto consciente, de experiência vivida.
A fé não é um sentimento. A fé não é um estado de espírito. A fé nem mesmo é uma atitude. A fé é uma inteligência. No Batismo, foi inserida em nosso ser uma potencialidade de inteligência nova. Eu me lembro de que quando era jovem, e estava no colegial, fazíamos sempre momentos de adoração no seminário. Uma das ideias, dos pensamentos, que mais me impressionavam era esta: “Eu venho até aqui e, para mim, na hóstia está o mistério da pessoa de Cristo, realmente, Cristo morto e ressuscitado realmente presente. Eu não sei bem o que significam, no fundo, os valores e os significados desta Presença, mas sei que está presente de verdade. Se aparecer aqui um protestante, para ele essa hóstia, na melhor das hipóteses, será um símbolo, um sinal que não contém nada, um pedacinho de pão ázimo”. Então eu ficava impressionado com o fato de ver alguma coisa que outros não podiam ver. Mas que significa esse “ver” (pois eu não via com os olhos a presença de Cristo)? Aí está a importância da palavra que usamos antes: reconhecer, reconhecer uma Presença.
Reconhecer uma Presença. Deveríamos reler, como cheguei a pensar em fazer, o início do Evangelho de São João 7, quando aqueles dois ficam tocados pela expressão profética de João Batista, que estica o braço na direção de Cristo, que estava ali, no meio dos outros. Ele o havia sentido como mais um no meio dos outros. Mas, quando Jesus estava indo embora, João Batista foi como que tomado por um raptus profético e, esticando os braços na direção d’Ele, gritou: “Eis o Cordeiro de Deus!”. E aqueles dois, atentíssimos, impressionados com o gesto de João Batista, puseram-se a seguir Jesus. E Jesus se voltou: “O que buscais?”, “Mestre, onde moras?”, “Vinde ver”. E foram e viram onde morava e ficaram lá o dia todo. “Era por volta das quatro da tarde.”
No dia seguinte, André, que era um dos dois, encontrando seu irmão, Simão, lhe disse: “Encontramos o Messias!”. Que havia acontecido? É que aqueles dois, tendo ido à casa de Jesus, ficaram impressionados com Ele – o Evangelho não especifica nada, como eu já disse tantas vezes aos mais jovens; são anotações que João evangelista escreve depois de velho, e cada frase supõe uma porção de notícias e comentários que ele não faz, como quando a gente escreve num caderninho de notas. Quem pode saber o que Jesus disse? É claro que devem ter perguntado a Ele: “Quem és tu?”, e Ele deve ter respondido: “Eu sou o Messias que está para vir”. E eis que nasceu neles, aconteceu neles, foi dado a eles, aceitaram reconhecer naquele homem que viam com seus olhos algo que não podiam ver com seus olhos: numa realidade, conteúdo da experiência humana, reconheceram a presença de algo maior, do divino – naquele homem que caminhava pelas ruas.
Leiamos um trecho do capítulo 4 do Evangelho de São Lucas: “Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor’. Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir [Eu cumpro justamente essas coisas]’” 8.
Alguns reconheceram nisso o sinal do que Ele dizia ser, reconheceram n’Ele a expressão do mistério de Deus. Outros, por uma série de motivos, o principal deles um apego provinciano a sua cidadezinha, não aceitaram crer, ou seja, não aceitaram reconhecê-Lo. “Não é ele o filho do carpinteiro, e seu pai, sua mãe e seus irmãos não moram aqui conosco? Que pretende ele ser?” 9. Em outras palavras, não era um reconhecimento daquilo que Ele comprovava, que pretendia ser ao olhos deles, mas um ataque, uma tentativa imediata de reduzir sua figura a algo que eles já conheciam.
Se a fé não é nem um sentimento, nem um estado de espírito, nem uma atitude, a fé é reconhecer um acontecimento – o acontecimento – dentro da experiência; portanto, é reconhecer um conteúdo experiencial visível, sensível, audível, tangível, como dirá São João em sua primeira carta: “O que nós ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida – de fato, a Vida manifestou-se e nós a vimos, e somos testemunhas, e a vós anunciamos a Vida eterna [...] – isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos” 10.
Portanto, reconhecer numa realidade – aquele homem que falava do púlpito da sinagoga, depois de levantar a mão no meio da multidão; pois esse era o costume na sinagoga nos sábados, que o ajudante agitasse o rolo que correspondia àquele dia e quem quisesse levantava a mão e podia ir comentá-lo; e Jesus, que entrou no mundo identificando-se totalmente com a realidade e os movimentos do homem comum, a princípio usou esses momentos para começar a dar sua mensagem, o anúncio pelo qual viera ao mundo, para anunciar a vida eterna, que era o conhecimento d’Ele –; reconhecer numa realidade que se pode experimentar, portanto num pedaço de tempo e espaço ligado a um homem, reconhecer a presença do divino numa realidade humana que se pode experimentar, isso é a fé.
Reconhecer é um ato da inteligência. É um reconhecimento que, como disse antes, arrasta consigo, urge também o envolvimento da afeição, da afetividade, ou seja, da vontade, que é a energia com a qual o homem estrutura e molda sua vida. Mas, substancialmente, a fé é uma potencialização da inteligência, uma inteligência nova, que nos é dada pelo Batismo, de forma tal que somos capazes de reconhecer, numa realidade que aparentemente pode ser identificada com qualquer outra experiência humana, a presença do divino, a presença de Deus. Quando Filipe disse: “Mostra-nos esse Pai de quem sempre falas e ficaremos satisfeitos!”, Jesus respondeu: “Há tanto tempo estás comigo, Filipe, e ainda não entendeste: quem vê a mim vê o Pai!” 11.

3. As condições da fé
Identificamos, assim, o conceito de fé, o valor da fé: reconhecer uma Presença. Para os doze que O seguiam – comendo com Ele, dormindo no chão com Ele, tremendo, tendo medo dos inimigos – e que O ouviam falar, viam-No fazer milagres, e se iludiram bastante e se desiludiram amargamente, como testemunham os dois discípulos de Emaús, para essa gente, naquele homem – que para os outros era igualzinho a qualquer um deles, ou melhor, com uma diferença, que Ele era um criminoso aos olhos dos defensores da lei, dos sacerdotes daquela época –, naquele homem estava presente o divino. “Quem dizem os homens que eu sou?”, “Alguns dizem que és um profeta, o maior dos profetas”, “E vós, quem dizeis que eu sou?”, “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”, “Feliz és tu, Simão, pois não repetiste isso porque tu mesmo a entendeste, mas porque o Pai te deu a capacidade de afirmá-lo, de me afirmar”12.
O reconhecimento de uma Presença, do divino. É claro que, quanto mais esse reconhecimento está presente na nossa consciência, mais é impossível que também a nossa maneira de sentir, a nossa maneira de avaliar, de julgar, a nossa maneira de possuir, a nossa maneira de usar, a nossa maneira de moldar o tempo e o espaço que nos são dados continuem como eram antes.
De qualquer forma, eu gostaria de dizer agora as duas condições fundamentais para que a fé possa ser considerada realmente católica, cristã. A primeira condição diz respeito ao coração do homem, a segunda, ao coração de Deus.

a) A primeira condição diz respeito ao coração do homem. Digamos diretamente o que Jesus afirmou (capítulo 11 do Evangelho de São Mateus), depois que todos ficaram exaltados por Seus milagres e queriam fazê-Lo rei, e Ele lhes prometeu, num ímpeto de afeição, motivado justamente pela intensidade com que o seguiam: “Eu vos darei a comer a minha carne e a beber o meu sangue”. Não esperavam por isso, certamente, e era uma coisa estranhíssima, “durus est hic sermo [esta linguagem é dura]”, era uma coisa estranha, e todos O abandonaram 13. Então Jesus disse: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado” 14. Em outras palavras: na fé, a primeira coisa que está em jogo é a liberdade do homem.
Pode parecer uma coisa óbvia, mas não é de jeito nenhum; no mínimo, essa resposta não é simplista. Vimos como em Nazaré, quando Jesus se apresentou a seus concidadãos, disse: “Vede, hoje se cumpriu o que Isaías prenunciou” 15. De um jeito banal, nós diríamos: Ele deu uma prova. E em que consistia essa prova? Sinteticamente, na capacidade de milagre (os cegos, os aleijados...). Mas é também um milagre moral: o sentido da vida será comunicado aos ignorantes, os corações ficarão livres, serão libertados. Seja como for, usemos nós também o termo capacidade de milagre, até porque é o mais adequado. O milagre nada mais é que uma inopinada e inconcebível (do ponto de vista humano, de acordo com a experiência do homem) realização do humano: uma perna torta que se endireita de repente é uma humanidade que se realiza, um acréscimo de humanidade absolutamente não previsível. Jesus, ao se apresentar (ou seja, a mensagem ou o anúncio dessa presença), sempre se liga, sempre pretende um laço com a prova experimental – como dizemos banalmente. Essa prova experimental coincide com uma humanidade mais intensa, mais completa, com a qual, para o homem comum, para o homem natural, não seria possível nem sonhar.
Os milagres de ordem física que Jesus realizava estavam subordinados a um milagre de ordem mais completa, total, que visava que o homem se pusesse na posição adequada diante d’Ele e do Pai, que o homem se sentisse ajudado no caminho rumo a seu destino. Tanto é que frequentemente o Evangelho nota: “Não fez milagres entre eles, pois não criam n’Ele” 16; “Vai, a tua fé te salvou!”17.
Portanto, a fé cristã é o reconhecimento da presença de Deus dentro de uma realidade humana (o acontecimento do divino, dentro de uma realidade humana), e se torna justa ou justificada por algo que se produz no humano – pelo qual o humano se torna mais ele mesmo, se torna mais perfeito. Para usar um termo preciso, é aquilo que chamamos “razoável”. São Paulo diz isso, quando fala da fé como “razoável obséquio” 18. O reconhecimento da Sua presença é um obséquio à Sua presença, mas deve ser razoável. Em outras palavras, essa notícia da Sua presença é introduzida na minha pessoa, na minha mente e no meu coração, pelo fato de que acontece algo que só pode acontecer graças a uma Presença excepcional, graças a uma Presença superior ao homem.
A fé deve ser razoável e a razoabilidade da fé está na ligação que eu experimento entre a fé e algo que acontece na minha vida: nela eu encontro uma resposta maior aos desejos e às expectativas da minha vida. Por isso, devo ser um homem sério, empenhado com o que minha mãe me deu; sério, ou seja, apaixonado por aquilo que a vida espera, por aquilo a que a vida tende. Eu devo ser um homem de coração. A simplicidade a que Jesus se referia no capítulo 11 do Evangelho de São Mateus é essa; poderíamos traduzi-la também por “sinceridade”, mas a palavra “simplicidade” é mais densa. Que eu leve a sério os desejos do coração, as exigências da minha alma de homem, as expectativas da sensibilidade com que a natureza, ou seja, Deus, me fez brotar no seio de minha mãe; que eu leve a sério a vida que está em mim, essa é a condição para que a fé possa encontrar o caminho da razoabilidade e, portanto, ser abraçada por mim.
Quando alguém lê o santo Evangelho, vê que as pessoas criam n’Ele, justamente, porque Ele havia feito milagres. Nesta altura, já podemos entender como se torna importante o fenômeno do milagre, não no sentido restrito de mudança física, de cura física, mas de incremento excepcional, de um incremento de toda a vida pessoal que, de outra forma, não poderia ser imaginado: “Quem me segue terá a vida eterna e o cêntuplo nesta vida” 19. A fé cristã se torna rica, madura, cheia de convicção, na medida em que pode dizer ter experimentado essa promessa ou esse critério de Cristo. Promessa e critério: “Quem me segue terá a vida eterna e o cêntuplo nesta vida”. Assim, os habitantes de Nazaré que creram n’Ele reconheceram com simplicidade a performance excepcional desse profeta.
Mas como poderemos nós possuir essa convicção, se, mesmo de uma maneira não refletida ou analítica, não tivermos experimentado sua capacidade de mudança da vida? Como sempre dissemos entre nós, meus amigos, aquele que talvez seja o primeiro pensamento de toda a história da filosofia ocidental, da antiga filosofia grega, ao menos um dos primeiríssimos pensamentos ou fragmentos, diz: “Envia-nos, ó pai Júpiter, o milagre de uma mudança”. Para o cristão, é a mudança da vida que ele experimenta, por assim dizer, diante da grande hipótese de trabalho que representa um conteúdo de mensagem tão inopinado: “Deus está conosco”. Esse homem é o “Deus conosco”, o Emanuel. Uma das maiores meditações para o cristão pode ser olhar, contemplar, a figura de Nossa Senhora, menina de quinze, dezesseis anos que, naquela hora, naquele momento do Anúncio, viveu tudo isso se definindo na fé. Mas não foi uma adesão cega. Que terá sentido, que terá experimentado Nossa Senhora, para poder ter dito tão de improviso: “Fiat”?
Eu penso com frequência nessa fé razoável que Nossa Senhora viveu naquele momento. “Razoável” significa a ligação que experimentamos entre o que nos é anunciado e a nossa vida humana, com uma vantagem evidente para esta vida, uma vez que o que nos é anunciado a muda, a torna mais humana (“Quem me segue terá a vida eterna e o cêntuplo nesta vida”). E quando pensamos que, todos os dias, nós, que fomos confiados a Cristo pelo Pai, nos levantamos, acordamos de manhã, e a escolha se renova, para que ao longo do dia venhamos, por meio da experiência de uma mudança, a dar maior glória a Cristo, então facilmente ficamos com vergonha do grande esquecimento em que normalmente vivemos e pelo qual as grandes palavras da fé se esvaziam de repente, perdendo todo o seu conteúdo e se tornando formais, efetivamente “palavras” ou “culto” ou “discursos”. Ao passo que o conteúdo dessas palavras – como também a força interior do culto e a força de verdade dos discursos – está todo na experiência da mudança da nossa vida.
Entre outras coisas, a pessoa descobre que tende à mudança.
O que é que define mais o homem, a não ser a tendência à mudança, como documenta o fragmento do antigo filósofo? Essa tendência à mudança se torna um estado de espírito normal para o homem e a mulher cristãos. Eu me lembro, bem nesse preciso sentido, da maneira como se apresentava, em minha mãe, já falecida, a tendência que brotava sempre de sua postura. Essa tendência à mudança é o primeiro aspecto do milagre na nossa vida. Pois a realização está nas mãos de Deus, que não curou todos os aleijados, não curou todos os cegos, aliás, proporcionalmente, curou pouquíssimos, mas curou cegos e aleijados para que vissem que tinha também poder sobre a natureza; curou aleijados e cegos para que a vida deles, crendo n’Ele, mudasse.
Tudo o que mencionei se resume à exigência de que a fé seja razoável. E eu quis insistir no fato de que a razoabilidade de crer não está numa visão, mas na constatação de um resultado da fé: uma mudança de nós mesmos – talvez a mudança de nós mesmos como consciência de que somos pecadores.
Seja como for, a experiência daquilo que nos alcançou, a graça que nos alcançou é uma resposta à nossa vida, pode, de alguma forma, ser experimentada como resposta às exigências da nossa vida. Por isso, a simplicidade a que se refere o Evangelho de São Mateus corresponde à famosa frase de Reihold Niebuhr (famosa no sentido de que já a citamos muitas vezes): “Nada é tão inacreditável quanto a resposta a uma pergunta que não foi feita” 20. Se a pessoa não sente com sinceridade e simplicidade o impacto dessa trama de exigências e de expectativas que forma o coração do homem, instrumento para a abertura ao mundo e a Deus, se a pessoa não é séria com aquilo que sente em sua humanidade, não pode estar à espera desse Cristo, desse Deus que se tornou homem, que é a resposta ao coração do homem, às expectativas com as quais sua mãe lhe deu à luz, a fim de que a natureza o conduzisse, por meio de todas as relações, pelo caminho infinito, pelo caminho da relação com Deus.

b) Mas há uma segunda característica da fé. Se ela depende da liberdade como simplicidade de coração, e se torna razoável graças ao milagre ou à experiência da mudança na própria vida, demonstrando a autenticidade de sua exigência de ser abraçada; se a fé precisa em primeiro lugar dessa simplicidade e, portanto, do esforço da liberdade para manter o coração desimpedido, olhando com seriedade para a própria criaturalidade, a segunda condição da fé é que ela é graça, é dom do Espírito. E é da união entre essa liberdade suprema de Deus e a liberdade do coração do homem que a fé brota, ou que são suscitadas suas passagens, tornando-se ela madura.
Por isso, o sinal por assim dizer mais evidente e mais clamoroso da correta disposição do coração perante o mistério da liberdade do Espírito é um pedido. Como o do cego, que gritava: “Faz que eu veja!”, “O que queres?”, “Faz que eu veja!” 21. E foi grande a comoção que Cristo teve diante do cego de nascença, como sublinha o símbolo inerente a essa desgraça do homem, que pode acontecer ao homem. Certa vez Pio XII estava recebendo um grupo de peregrinos e dava a mão a beijar. Mas chegou uma pessoa que não beijou sua mão. Então o secretário disse ao Papa: “Santidade, ele é cego”. Pio XII pôs a mão na cabeça daquele jovem e disse: “Somos todos cegos”. De fato, é a luz do Espírito, justamente, que faz as circunstâncias externas agirem como a circunstância interna do coração, para que a fé não continue a ser uma semente inerte dentro dos torrões do nosso ser, mas amadureça e se desenvolva eficazmente. Eu dizia, porém, que o aspecto mais evidente da autenticidade da nossa liberdade diante da grande liberdade do Espírito é o pedido da fé. Como é grande a relação entre o pequenino homem e Deus, como é grande, quando tudo já está na impotência do pedido. É por isso, como me explicavam no seminário, que a oração é chamada por Santo Afonso “a onipotência suplicante”. Seja como for, o pedido da fé é aquilo que mais assegura a verdade da nossa liberdade diante de Deus.

4. O perigo do espiritualismo
Antes de concluir, eu gostaria de sublinhar qual é o maior perigo para a fé nos dias de hoje. Se a fé é o reconhecimento da presença de Cristo no humano, nós sabemos como essa Presença se prolonga no tempo e no espaço da história: essa Presença se prolonga no Corpo misterioso de Cristo, no grande sinal sacramental que é a Igreja. Nós sabemos que é nessa realidade da unidade entre todos os cristãos, em torno de seus pastores, com a garantia do Bispo de Roma, é dentro dessa realidade humana que a presença de Cristo permanece. A fé, portanto, é reconhecer dentro dessa humanidade, que desenvolve sua fisionomia exterior século após século, ou melhor, anos após ano, é reconhecer dentro dessa humanidade, que é formada por nós, a presença real de Cristo (pois cada um de nós foi como que assimilado a Ele, no mistério da Sua personalidade, e todos nós vivemos numa comunhão profunda de seres n’Ele, a ponto de São Paulo dizer: “Não entendeis que sois membros uns dos outros?” 22). A fé é reconhecê-Lo dentro dessa humanidade que não é mais o indivíduo Jesus de Nazaré, mas é Jesus de Nazaré glorificado, depois da Sua morte, na ressurreição, que tem o poder de assimilar a si todos aqueles que o Pai lhe confia, dilatando-se, como diz São Paulo no capítulo 4 da Carta aos Efésios, dilatando-se e desenvolvendo-se rumo à realização da Sua estatura, da Sua maturidade na história. Cristo está dentro dessa realidade que é a Igreja.
Mas, desde os primeiríssimos tempos da vida da Igreja, a alternativa à fé sempre desempenhou um papel dramático, trágico. Em nossos dias, esse papel se tornou tão forte, e seu resultado é tão grave – sua vitória é tão grave –, que Paulo VI, numa conversa com o grande filósofo francês Jean Guitton, disse: “O que me impressiona, quando considero o mundo católico, é que dentro do catolicismo parece às vezes predominar um pensamento de tipo não-católico; e pode acontecer que amanhã esse pensamento não-católico dentro do catolicismo se torne o mais forte. Mas ele nunca representará o pensamento da Igreja. É preciso que [sempre] subsista um pequeno rebanho, por menor que ele seja” 23.
Esse testemunho dramático de Paulo VI, esse juízo terrível de Paulo VI sobre esta época da Igreja, evidencia, como eu apontava antes, uma alternativa constante na história destes últimos anos, uma tentação constante. A alternativa à fé é a redução do acontecimento cristão a algo que nós decidimos: não o reconhecimento do acontecimento cristão tal como o anúncio o traz – Deus está presente nesse homem, Cristo; Cristo, Deus-homem, está presente no mistério de Seu corpo, que é a Igreja –, mas a redução da mensagem cristã à luz dos critérios da razão humana, tal como são formulados pela cultura de cada época. Em outras palavras, não é mais o acontecimento cristão que desafia a razão, mas é a razão que acomete o fato cristão e o rebaixa, o reduz às evidências exigidas pela cultura do momento. Há dois mil anos, isso se chamava gnosticismo; hoje, podemos lhe dar muitos nomes: racionalismo, iluminismo, progressismo, secularismo. Podemos lhe dar muitos nomes, mas, em cada época, ele é uma espécie de neognosticismo: a verdade é aquilo que eu considero verdade das coisas que me dizem. É o oposto do homem simples, que abraça como uma criança (“Se não vos tornardes como crianças...” 24) aquilo que lhe é dito a partir da evidência trazida pelo que lhe é dito.
No entanto, essa posição farisaica (é exatamente a mesma posição do fariseu, que respeitava, na lei, apenas a sua interpretação), essa interpretação da mensagem cristã, tende a reduzir Cristo: Cristo não seria realmente o Deus-homem, mas um homem que sentiu Deus mais do que os outros, como dizia Renan no século XIX, por exemplo; ou, então, Cristo é uma palavra, uma grande palavra, que reanima o sentimento religioso. A redução é feita de acordo com cada posicionamento cultural.
Tudo o que chamei de gnosticismo, desde os primeiros dias até hoje, tem um denominador comum, e pode desembocar no materialismo ou no espiritualismo da mesma forma, identicamente. Todavia, ao longo da história cristã, é sobretudo no espiritualismo que esse gnosticismo desemboca, ou seja, num conceito intimista de Espírito, de Deus. Eu disse espiritualismo, mas explico melhor. O que é o Espírito que o Evangelho e a tradição bíblica nos deram a conhecer? É a força com que Deus, do nada, cria a matéria, o tempo e o espaço; é a origem, o poder que origina a realidade, também a realidade material. O que é esse poder do Espírito que invadiu Nossa Senhora, gerou Cristo, “moldou” Cristo? O que é esse Espírito que, na história, no tempo e no espaço, cria os preâmbulos de Cristo? É um conceito do Espírito que, em sua autenticidade e ortodoxia, revela a força com que Deus é capaz de moldar o tempo e o espaço, de realizar no tempo e no espaço, na história, uma existência diferente, uma obra diferente, não simplesmente a meta de uma devoção, mas uma presença que transforma – mais uma vez, a ideia de mudança –: transforma, muda a maneira de ver as coisas, muda a inteligência, a maneira de se afeiçoar às coisas, o amor, e a maneira de trabalhar, ou seja, de moldar as coisas, gera uma vida diferente. Por isso, o Papa, este Papa, sempre falou do Espírito como a origem de um mundo novo, que começa no presente, começa neste mundo.
Se o Senhor não fosse essa força, não teríamos entre nós o Deus feito homem, Cristo; Ele não estaria em nossas igrejas e não estaria no grande Corpo da Igreja, ou seja, dentro da nossa unidade, dentro da nossa fraternidade, dentro da nossa comunhão. Ele não é mais o Deus distante, não é o Espírito invisível: é o Espírito invisível que se documenta continuamente, não numa emoção efêmera e subjetiva, mas numa mudança deste mundo.
A fé, se podemos traduzir assim uma frase de São Paulo, não é útil apenas no além, no futuro, mas é útil no presente. A piedade é útil para tudo, podendo servir para o futuro e para o presente 25. E, se aceitarmos esta expressão que pode parecer banal, é na demonstração de que a fé é útil para o presente, para uma mudança presente, que está o conteúdo do grande testemunho de Cristo, para o qual nos foi dado o Batismo: “Chegou a hora. Glorifica o teu Filho” 26. E o Pai glorifica seu Filho por meio de nós, por meio da nossa vida. E a nossa vida O glorifica se, em Seu nome, pelo reconhecimento d’Ele, que anima toda a minha pessoa, a nossa vida, de alguma forma, aos olhos do simples, muda sensivelmente.

(Texto publicado em Passos n. 91, março/2008)

Notas

[1] Referência ao Sínodo dos Bispos sobre os leigos, realizado em Roma de 1º a 30 de outubro de 1987.
[2] Jo 17,1-3.
[3] Cf. Dt 14,2
[4] Cf. Mc 8,38; Lc 9,26.
[5] Cf. Mt 25,31-46.
[6] Jo 3,6.8.
[7] Cf. Jo 1,35-42.
[8] Lc 4,16-21.
[9] Cf. Mt 13,55; Mc 6,3.
[10] 1Jo 1,1-3.
[11] Cf. Jo 14,8-9.
[12] Cf. Mt 16,13-17.
[13] Cf. Jo 6,52-60.
[14] Mt 11,25-26.
[15] Cf. Lc 4,21.
[16] Cf. Mc 6,5.
[17] Cf. Mt 9,22; Mc 5,34; Lc 7,50; 8,48; 17,19; 18,42.
[18] Cf. 2Cor 10,5.
[19] Cf. Mt 19,29; Mc 10,29-30.
[20] Niebuhr, R. Il destino e la storia. Milão, Rizzoli, 1999, p. 66.
[21] Cf. Mc 10,46-52.
[22] Cf. Ef 4,25.
[23] Guitton, J. Paolo VI segreto. Milão, Edizioni Paoline, 1985, pp. 152-153.
[24] Cf. Mt 18,3.
[25] Cf. 1Tm 4,8.
[26] Jo 17,1.

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