A cultura casaca, a percepção do mistério - Textos de João Paulo II

A cultura casaca, a percepção do mistério

João Paulo II Passos

01/02/2005 - Cazaquistão

Por ocasião da sua visita ao Cazaquistão, João Paulo II, durante encontro com os representantes do mundo da cultura, falou da cultura casaca. Astana, 24 de Setembro de 2001

O Cazaquistão é um grande País, que ao longo dos séculos cultivou uma cultura local viva e rica de fermentos, graças também ao contributo de representantes da cultura russa, aqui confinados pelo regime totalitário. Quantas pessoas percorreram esta vossa Terra! Apraz-me recordar, em particular, o diário do viajante e comerciante veneziano Marco Polo que, já na Idade Média, descreveu com admiração as qualidades morais e a riqueza das tradições dos homens e das mulheres da estepe. A grande extensão das vossas planícies, o sentido da humana fragilidade alimentado pelo desencadear das forças da natureza, a percepção do mistério escondido por detrás dos fenómenos experimentados pelos sentidos, tudo favorece no vosso povo a abertura às interrogações fundamentais do homem e a exploração de respostas significativas para a cultura universal. Ilustres Senhores e Senhoras, vós sois chamados a difundir no mundo a rica tradição cultural do Cazaquistão: tarefa árdua e ao mesmo tempo fascinante, que vos empenha a descobrir os elementos mais profundos para os reunir numa síntese harmoniosa. Um grande pensador da vossa Terra, o mestre Abai Kunanbai, exprimia-os assim: "O homem não pode ser homem se não tiver a percepção dos mistérios visíveis e escondidos do universo, sem procurar uma explicação para cada coisa. Aquele que renuncia a isto em nada se distingue dos animais. Deus diferencia o homem do animal dotando-o de uma alma..." (Ditos de Abai, cap. 7).

Como não captar a profunda sabedoria destas palavras, que parece que desenvolvem um comentário à perturbadora pergunta feita por Jesus no Evangelho: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?" (Mc 8, 36). Existem no coração do homem perguntas insuprimíveis, as quais, se o homem as ignora, não se torna mais livre, mas mais frágil, acabando muitas vezes à mercê da própria instintividade, e também da prepotência do próximo.

"Se o coração nada mais deseja diz ainda Abai Kunanbai / quem pode despertar o pensamento? / ... Se a razão se abandona à vontade, / perde toda a sua profundidade. / ... Pode um povo digno deste nome dispensar a razão?" (Poesia 12).
Perguntas como esta são por sua natureza religiosas, no sentido de que evocam aqueles valores supremos que têm em Deus o seu fundamento último. Por sua vez a religião não pode deixar de se confrontar com estas interrogações existenciais sob pena de perder o contacto com a vida. (…) Ouvimos ainda o grande mestre Abai Kunanbai: "A prova da existência de um Deus único e omnipotente é que há vários milénios, os homens falam em línguas diferentes desta existência e todos, qualquer que seja a sua religião, atribuem a Deus o amor e a justiça. Na origem da humanidade, estão o amor e a justiça. Aquele no qual dominam os sentimentos do amor e da justiça é um verdadeiro sábio" (Ditos de Abai, cap. 45).

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