«Deus não deixa nunca de nos procurar» - Artigos de imprensa

«Deus não deixa nunca de nos procurar»

Entrevista com padre Julián Carrón - por Paolo Perego Tracce.it

27/08/2014 - O responsável de CL visita o Meeting, entre encontros, exposições e amigos. «As periferias? São a modalidade com a qual encontramos Jesus. O que é o essencial, descobrimo-lo através de qualquer circunstância»

Entrada e saída num dia. Para ver o Meeting, onde estão os seus amigos, explica o Padre Julián Carrón, presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, a quem lhe pergunta porque veio. Viu ainda pouco da Feira. O encontro com o arqueólogo Giorgio Buccellati e o Padre Ignacio Carbajosa, sobre Deus na história antiga, e a exposição sobre Charles Péguy. Acompanhou o Meeting de longe, diz ainda, tocado pelo Padre Pierbattista Pizzaballa, a quem chama amigo «por causa daquele olhar redimido sobre a realidade» que mostrou na sua intervenção. E também tocado pelo Papa e pela sua mensagem.

Padre Carrón, por que as periferias? Por que descentrar-se, como disse o Papa Francisco, para encontrar Jesus? Não basta aquilo que vivemos? O que mais podemos descobrir?
Encontrar as periferias é a modalidade através da qual encontramos Jesus. Impressiona-me sempre muito quando Dom Giussani diz que nós temos tudo no encontro com Jesus. Mas o que significa este “tudo”, o que significa Jesus, descobrimo-lo no confronto ou no encontro com as circunstâncias. Ou seja, com as periferias. Mas nós pensamos que as periferias são um extra, qualquer coisa que nos distraia. E, pelo contrário, esta é a única modalidade com a qual, enfrentando a vida, as circunstâncias, os desafios, podemos entender o que é Cristo. Sem esta verificação de Cristo em todas as periferias, não podemos entender o que Ele é. Por isso convém-nos seguir o Papa. Se não for assim, pensaremos ter conhecido Jesus, mas não O teremos conhecido.

O destino não deixou o homem só. No encontro a que assistiu esta manhã, ficou muito claro como a presença de Deus é uma constante em toda a história da humanidade. O destino nunca deixou o homem só...
Bento XVI disse que Deus nunca é derrotado. Ou seja, recomeça sempre, tomando novas iniciativas. Todos os eventos da história são as novas iniciativas de Deus com as quais procura, de formas diversas, o homem. E nós vemos também agora, no presente, aquilo que vimos acontecer no passado, como se dizia esta manhã: as contínuas iniciativas através das quais o Mistério procura o homem. Qualquer que seja a situação em que se encontre. E nunca desiste. Porque Deus não depende daquilo a que nós chamaríamos as vitórias, os resultados. O seu ponto de partida é diferente. Ele parte sempre dum amor desmesurado pelo homem. E ainda que o homem lhe diga não, ainda que o homem não responda da forma adequada, ou ainda que se esqueça, Deus nunca desiste de procurar o homem. Como você nunca desistiria de procurar o seu filho, qualquer que fosse a estupidez que ele tivesse feito. É fácil. Nós poderemos entender Deus se nos identificarmos por um instante com o que um pai faria pelo filho. Deus é este pai que nunca desiste de procurar o filho.

O Papa convidou a um caminho, indicando como única bagagem o essencial e a realidade. O que são para si?
O essencial para nós é como o significado. Uma presença sem a qual a realidade não teria significado. Nem todas as coisas têm o mesmo significado para nós. O essencial é aquilo que é tão significativo, que sem isso não se pode viver. É o que nos permite entrar em qualquer aspecto da realidade. Se tivermos descoberto o essencial, podemos entrar em qualquer escuridão, em qualquer periferia, em qualquer aspecto da realidade. O que tem que viver uma enfermeira, como é que tem que ser verdadeiramente consistente, que coisa essencial teve que ter-lhe acontecido, para poder entrar no quarto onde está o doente terminal? Para poder entrar naquela escuridão? Igualmente, por que é que alguns cristãos continuam a viver na Síria? Ou por que é que algumas pessoas se preocupam com os últimos? Deve ter acontecido alguma coisa muito significativa, graças à qual nenhum aspecto da realidade perde valor. Aliás, adquire todo o valor graças àquele essencial. Mas muitas vezes, parece que afirmar o essencial vai contra a realidade. Ou que afirmar a realidade vai contra o essencial. Graças a Deus, nós, que encontrámos o cristianismo tal como o testemunhou Dom Giussani, e tal como aparece no Evangelho, vemos que para Jesus afirmar o essencial, afirmar a Sua relação com o Pai, não foi uma coisa que O distraísse de qualquer aspeto do real ou do homem. Pelo contrário, era precisamente o que O fazia interessar-Se por qualquer homem. Por isso, o essencial e a relação com a realidade caminham juntos. Sem ter uma presença assim tão significativa, tão essencial para nós, a realidade não nos interessará, porque não seremos capazes de estar diante dela, de enfrentar os seus desafios, alguns aspectos escuros e algumas coisas que nos desconcertam.

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