A despedida de um bispo - Textos de Francisco

A despedida de um bispo

Francisco L'Osservatore Romano

30/05/2017 - Meditações matutinas na Capela da Domus Sancte Marthae

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 23 de 8 de junho de 2017

«Rezemos pelos pastores, pelos nossos pastores: pelos párocos, pelos bispos, pelo Papa; para que a sua seja uma vida sem comprometimentos, uma vida a caminho e na qual eles não se sintam no centro da história e desta forma aprendam a despedir-se». Foi a invocação elevada por Francisco.

Em particular, o Pontífice refletiu sobre a primeira leitura, tirada dos Atos dos Apóstolos (20, 17-27), que — disse — «pode ser intitulada “A despedida do bispo”». De facto, na narração «Paulo despede-se da Igreja de Éfeso. Aquela Igreja que ele fundou, naquele dia do Pentescostes de Éfeso, quando desceu sobre eles o Espírito Santo».

«Tinha seguido — confirmou o Papa retomando a descrição da cena — mas agora deve partir. E de Mileto mandou que viessem a Éfeso todos os presbíteros». Resumindo, esclareceu Francisco, usando uma terminologia atual, «era como se fosse uma reunião de conselho presbiteral, mas na qual o bispo se despede, o pastor despede-se».

De resto, observou, «todos os pastores devem despedir-se. Chega um momento em que o Senhor nos diz: vai para outro lado, vai para lá, vem para cá, vem para mim. E um dos passos que o pastor deve dar é preparar-se para se despedir bem, não se despedir pela metade». Inclusive porque, advertiu, «o pastor que não aprende a despedir-se é porque mantém algum vínculo não bom com o rebanho, uma ligação que não foi purificada pela cruz de Jesus».

Eis então, prosseguiu a narração, que «Paulo se despede». Mas, evidenciou o Pontífice, «o passo desta despedida não acaba com a leitura de hoje, vai até ao fim do capítulo 20». E recomendou: «peço a todos vós para lerdes hoje o capítulo 20 do versículo 17 até ao fim. Capítulo 20. Este conselho presbiteral no qual Paulo bispo se despede».

De facto, lendo o trecho o Papa indicou «três atitudes» a evidenciar nesta despedida do apóstolo. A primeira pode ser notada quando os anciãos da Igreja se aproximam dele e Paulo diz: «Sabeis como me comportei convosco durante todo este tempo, desde o primeiro dia em que cheguei à Ásia: servi o Senhor com toda a humildade, entre lágrimas e provações».

Portanto, «ele não se vangloria, não é um ato de vaidade. Não. Narra a história». E deste modo faz resultar um aspeto, o primeiro ponto que o Papa pretende «evidenciar»: «Nunca recuei». Uma das atitudes que dará muita paz ao pastor quando se despede é recordar-se que nunca foi um pastor de comprometimentos. “Nunca recuei”, sem comprometimentos».

E para isto é preciso coragem. Paulo afirma: «Recordai... para que pudesse instruir-vos, pregar a vós e dar testemunho a todos». Por conseguinte, «ele não se vangloria, porque diz que é o pior dos pecadores, sabe-o e confessa-o. Mas aqui está a narrar a sua história nessa Igreja». E «depois retoma a outra parte do passo, depois do capítulo 20, até ao fim, algo semelhante a este resumo, a este exame de consciência».

Explicou Francisco «o pastor despede-se e conserva no coração a paz de saber que não governou a Igreja com comprometimentos. Não recuou». Eis porque, disse o Papa, «se lermos até ao fim» este trecho «sozinhos, choraremos, como choram os presbíteros. A beleza da verdade, da vida».

Depois, passando ao segundo ponto, o Pontífice advertiu que Paulo após ter olhado para o passado agora pensa no presente: «E agora, aqui vou preso em espírito a Jerusalém, sem saber o que lá me espera». Praticamente o apóstolo diz: «Obedeço ao Espírito: “vou preso em espírito”». Eis o segundo ponto evidenciado pelo Pontífice: «o pastor sabe que está a caminho». Com efeito, enquanto «Paulo guiava a Igreja mantinha a atitude de não ter compromissos; agora o Espírito pede-lhe que se ponha a caminho, sem saber o que acontecerá. E continua porque ele nada possui, não fez do seu rebanho uma apropriação indébita. Serviu. “Agora quer Deus que eu vá embora? Vou sem saber o que me acontecerá. Só sei — o Espírito lhe tinha feito saber — que o Espírito Santo de cidade em cidade me garante que me esperam correntes e tribulações”. Isto sabia».

Para o Papa é como se Paulo quisesse dizer: «Não vou para a reforma. Vou para outro lugar servir outras Igrejas. Sempre de coração aberto à voz de Deus: deixo isto, verei o que o Senhor me pede. E aquele pastor sem comprometimentos agora é um pastor a caminho. Porque não se apropriou do rebanho».

E só se nos perguntarmos: «por que não se apropriou?» — prosseguiu o Pontífice na sua reflexão — sobressai «o terceiro traço» a frisar. «Não considero de modo algum preciosa a minha vida», diz Paulo, como se quisesse dizer: «não sou o centro da história, da história grande nem pequena, não sou o centro. “Não considero preciosa a minha vida. Sou um servo”». E este facto fez com que o celebrante se recordasse «daquele ditado popular: como se vive, se morre; como se vive, se despede». Assim «Paulo despede-se com a liberdade que teve no dia que perguntou: “Recebestes o Espírito Santo?”. E depois a liberdade sem comprometimento, a caminho, e “não sou o centro da história”: assim se despede um pastor. O grande Paulo ensina-nos».

Por fim, o capítulo dos Atos conclui-se com a cena dos ouvintes do apóstolo, que choram, porque ele lhes diz: “Nunca mais me vereis”. «Ajoelham-se, rezam, acompanham-no ao barco e parte», concluiu o Papa, exortando «com este exemplo tão bonito» a rezar «pelos nossos pastores».




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