Reconhecer a nossa vulnerabilidade - Textos de Francisco

Reconhecer a nossa vulnerabilidade

Francisco Vatican.va - L'Osservatore Romano

16/06/2017 - Meditações matutinas na Capela da Domus Sancte Marthae

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 26 de 29 de junho de 2017

“Para ser muito felizes” o segredo consiste em reconhecer-se sempre frágeis e pecadores, ou seja, “vasos de barro”, aquele material pobre que contudo pode conter até “o maior tesouro: o poder de Deus que nos salva”. E foi contra a tentação de muitos cristãos de se maquilharem para parecerem “vasos de ouro”, hipocritamente “suficientes para si mesmos”, que Francisco advertiu durante a missa.

“Neste quarto capítulo da segunda carta aos Coríntios – fez imediatamente presente o Papa referindo-se ao trecho proposto pela liturgia (4, 7-15) — Paulo fala do mistério de Cristo, fala da força do mistério de Cristo, do poder do mistério de Cristo”. E depois, explicou o Papa, o apóstolo “continua com o trecho que lemos: ‘Irmãos, temos um tesouro — Cristo — em vasos de barro’”. Por conseguinte, reafirmou Francisco, “este tesouro de Cristo nós temo-lo, mas na nossa fragilidade: nós somos de barro”. É “um grande tesouro em vasos de barro: mas porquê?”. A resposta de Paulo é clara: “Para que se torne evidente que este extraordinário poder pertence a Deus, e não a nós”.

Eis então “o poder de Deus, a força de Deus que salva, que cura, que põe de pé, e a debilidade do barro, que somos nós”. Conscientes, por isso, de que “nenhum de nós se pode salvar a si próprio: todos precisamos do poder de Deus, do poder do Senhor, para sermos salvos”.

Esta verdade, recordou o Pontífice, “é como um leitmotiv nas cartas de Paulo”. Com efeito, “o Senhor diz a Paulo: ‘O meu poder manifesta-se plenamente na debilidade. Se não há debilidade, o meu poder não se pode manifestar’”. Eis então a imagem eficaz do “vaso, mas vaso frágil, de barro”. Assim, “quando Paulo se lamenta e pede ao Senhor que o liberte dos ataques de Satanás, diz ele, que o humilha e envergonha, que responde o Senhor? ‘Te seja suficiente a minha graça, continua a ser barro, que eu tenho o poder de salvação’”.

Precisamente “esta é a realidade da nossa vulnerabilidade” explicou Francisco. Porque “todos nós somos vulneráveis, frágeis, débeis e temos necessidade de ser curados”. Paulo diz isto com vigor na sua carta aos Coríntios: “estamos atribulados, perplexos, perseguidos, abatidos como manifestação da nossa debilidade”. Eis a “debilidade de Paulo, manifestação do barro”. E “esta é a nossa vulnerabilidade: uma das coisas mais difíceis na vida é reconhecer a própria vulnerabilidade”.

“Por vezes procuramos encobrir a vulnerabilidade, para que não se veja; ou mascará-la, para que não se veja”; ou acabamos por “dissimular”. A ponto que “o próprio Paulo, no início deste capítulo” da segunda carta aos Coríntios, diz: “Quando caí nas dissimulações vergonhosas”. Porque “as dissimulações são vergonhosas, sempre: são hipócritas, porque há uma hipocrisia em relação ao próximo”. Com efeito, “aos doutores da lei o Senhor diz: ‘hipócritas’”. Mas “há outra hipocrisia: o confronto com nós próprios, ou seja, quando eu penso que sou diferente do que realmente sou, penso que não preciso de cura, de apoio; penso que não sou de barro, que possuo um tesouro ‘meu’”. E este “é o caminho, é a vereda que leva à vaidade, à soberba, à autorreferêncialidade daqueles que não se sentindo de barro, procuram a salvação, a plenitude por si mesmos”.

Por isso, nunca devemos esquecer que é “o poder de Deus que nos salva”. Porque “Paulo reconhece a nossa vulnerabilidade”, dizendo sem meios-termos: “estamos atribulados, mas não esmagados porque o poder de Deus nos salva”. E por esta mesma razão Paulo reconhece também que estamos “abatidos mas não desesperados: há algo de Deus que nos dá esperança”. E então “somos perseguidos, mas não abandonados, esmagados, mas não mortos: há sempre esta relação entre o barro e o poder, o barro e o tesouro”. Assim deveras “nós temos um tesouro em vasos de barro, mas a tentação é sempre a mesma: cobrir, dissimular, não acreditar que somos de barro”, cedendo assim “à nossa hipocrisia”.

“Paulo leva-nos, com este modo de pensar, de raciocinar, de pregar a palavra de Deus, a um diálogo entre o tesouro e o barro. Um diálogo que devemos fazer continuamente para sermos honestos”, acrescentou o Papa, indicando como exemplo “quando nos vamos confessar” e talvez reconheçamos: “sim, fiz isto, pensei aquilo”. E assim “confessamos os pecados como se fossem uma lista de preços no mercado: fiz isto, isto e isto”. Mas segundo o Papa, a verdadeira pergunta a fazer é: “Tens consciência deste barro, desta debilidade, desta vulnerabilidade?”. Porque “é difícil aceitá-la”.

“Até quando reconhecemos que ‘somos todos pecadores’ talvez seja só por dizer”, sem pesar totalmente o seu significado. Por isso é oportuno fazer um exame de consciência consigo mesmos, questionando-nos se “temos consciência de ser de barro, débeis, pecadores”, cientes de que “sem o poder de Deus” não podemos “ir em frente”. Ou então “pensamos que a confissão consiste em caiar um pouco o barro para ele ser mais forte? Não é!”. Mas “há a vergonha que dilata o coração para que entre o poder de Deus, a força de Deus”. Precisamente “a vergonha de ser barro e não um vaso de prata nem de ouro: ser barro”. E “se chegarmos a este ponto, sentir-nos-emos muito felizes”.

Ainda em relação ao “diálogo entre o poder de Deus e o barro”, o Pontífice sugeriu que se pense “no lava-pés, quando Jesus se aproxima de Pedro e este diz: ‘Não, a mim não, Senhor, mas por favor, o que fazes?’”. O facto é que Pedro “não tinha compreendido que era de barro, que tinha necessidade do poder do Senhor para ser salvo”. Mas eis que “quando o Senhor lhe diz a verdade”, Pedro não hesita minimamente e responde: “Ah, se for assim, não só os pés: todo o corpo, também a cabeça!”. Pedro é um homem “generoso”. Tem aquela “generosidade” que leva a “reconhecer que somos vulneráveis, frágeis, débeis, pecadores: unicamente se aceitarmos que somos de barro, descerá sobre nós este extraordinário poder de Deus e nos dará a plenitude, a salvação, a felicidade, a alegria de sermos salvos”.

Em conclusão, o Papa rezou ao Senhor precisamente para que “nos conceda esta graça”, para que sejamos sempre capazes de receber “o teu tesouro, Senhor, conscientes de que somos vasos de barro”.



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