«Todo homem vale»

Diante da possibilidade do contágios por coronavírus dentro dos presídios, um juiz precisa tomar decisões que vão além das ideologias para preservar as vidas, atento «à voz de Cristo que me fala baixinho ao ouvido»

Nesses dias, com a possibilidade real de contágio aqui no meu país e na minha cidade pelo novo coronavírus, como em todos os outros lugares, as autoridades, especialmente as de saúde, têm de tomar decisões que afetam muitas vidas. Sou juiz das execuções penais do meu estado e recebemos nestes dias uma preocupação das autoridades sanitárias acerca das pessoas do sistema carcerário. Por uma razão muito simples: devemos combater ao máximo a aglomeração de pessoas para evitar o contágio comunitário. Mas como fazer isso no sistema prisional, onde há o dobro de pessoas para o número de vagas, vivendo em condições subumanas, sem higiene, sem espaço para ficar, com pouca alimentação, com pouco ou nenhum tratamento de saúde e quase sempre sem nenhuma ventilação? Além disso, há um número considerável daquelas pessoas no grupo de risco: idosos, doentes crônicos, pessoas com HIV, tuberculose, etc.

Precisávamos tomar uma decisão rápida, antes da contaminação desse ambiente pelo coronavírus. Diante disso tudo, reuni minha equipe e começamos a trabalhar nesses casos. O que está em jogo é a vida das pessoas. Na batalha entre o direito à segurança e o direito à vida, ficamos com este último. Não podemos deixar ninguém para trás. Todo homem vale. Não importa se é bom ou mau, idoso ou jovem, criminoso ou não. Temos de evitar o agravamento do genocídio silencioso dentro das cadeias por falta de condições sanitárias. Seus deletérios efeitos alcançam muitas pessoas em tempos normais; e com grandes chances de piorar, em tempos de pandemia.

De posse desses fatores, foi (e ainda é) luminosa, para mim, a carta de Padre Julián Carrón do dia 12 de março, em que ele nos diz que: «Nestas semanas cada um de nós poderá ver qual posição é que vai prevalecer: uma disponibilidade a aderir ao sinal do Mistério, a seguir a provocação da realidade, ou deixar-se levar por qualquer “solução”, proposta, explicação, a fim de distrair-se da provocação, evitar essa vertigem». Não há tempo para distração. O inimigo é rápido e voraz. Tive de seguir a provocação da realidade. Interceptá-Lo dentro dessa dramática realidade. Não de maneira instintiva, mas seguindo as orientações das autoridades sanitárias. Essas orientações, hoje, são a voz de Cristo que me fala baixinho ao ouvido e não posso ser indiferente a elas.

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Deixei em segundo plano as discussões das ideologias punitivas ou libertárias acerca da prisão e do criminoso. O que estava em jogo, para mim, era o valor da pessoa, da minha pessoa, da vida das outras pessoas, de cada pessoa dentro ou fora do cárcere. Foi assim que passei mais de 72 horas, sem descansar, com minha equipe, em trabalho remoto, para examinar todos os casos urgentes e inseri-los em prisão domiciliar, fiscalizada por monitoração eletrônica, e assegurar a cada um deles a possibilidade de vida, de dar e receber cuidados dos seus familiares e assim reduzir as chances de a pandemia alcançar mais vítimas. Por isso, agradeço sua companhia nesses dias. Sou grato pelo dom de ter recebido o carisma de Padre Giussani e da fraterna companhia de Padre Julián Carrón.

Carta assinada