Irmão Elio Croce (foto Mauro Fermariello)

Uganda. A resposta do Irmão Elio

Em meio a confrontos e massacres, Elio Croce reconstruiu um povo, simplesmente se colocando a seu serviço. A voz daqueles que conheceram o missionário italiano
Maurizio Vitali

Quase tudo está escrito na terra vermelha que cobre o velho Toyota Land Cruiser, uma caminhonete estacionada sob um toldo no St. Mary Lacor Hospital, em Gulu, no norte de Uganda, onde vivem os acholi. Quantas estradas indica essa poeira, infinitos quilômetros pela savana. Esta caminhonete serviu de ambulância para doentes de ebola e para feridos de guerra e de conflitos internos, ônibus escolar para os órfãos do St. Jude Children’s Home, carro fúnebre para as famílias que não tinham dinheiro para pagar o translado do corpo de um ente querido, táxi gratuito para mulheres carregadas como bestas. Quase tudo está escrito nessa almofada para dor de costas deixada no encosto do assento, esse boné preto abandonado no assento do lado, nesse terço pendurado no retrovisor, pois não havia viagem que não começasse com uma oração.

Dor nas costas, boné e terço eram do Irmão Elio Croce, comboniano leigo, um grande homem de Deus com coração de criança, que acolhia a todos e que sabia fazer de tudo. Dirigia um SUV, não um Aston Martin, mas se você olhar as fotos dele concordará que ele se parece muito com Sean Connery.



Bom samaritano e construtor de catedrais. O samaritano sempre cuidou dos mais necessitados que encontrava: órfãos, feridos, mutilados, deficientes, doentes. Nunca se abstinha da oportunidade de ajudar alguém. Nem sequer quando o chamavam para enterrar, com enorme risco para sua integridade, os mortos assassinados pelos ferozes soldados da guerra, que os deixavam caídos como cães. Como construtor, edificou hospitais, armazéns, escolas, orfanatos, sistemas de irrigação, moinhos, e até uma bela igreja, proporcionando trabalho e ensinando a trabalhar. Seu ditado preferido era «Quem não vive para servir não serve para viver». Nunca considerou nenhuma obra nem iniciativa como algo próprio, mas sim da Providência. Com um método de verificação muito simples: se a obra é da Providência, seguirá adiante; se não, acabará.

Brother Elio sobreviveu a massacres e ao ebola, mas a Covid o levou para o céu em 11 de novembro de 2020, aos 74 anos, dos quais cinquenta passou em Uganda.

Irmão Elio era italiano e nasceu nas montanhas (Moena, em Trentino) e tinha o temperamento de montanhês: poucas palavras, uma couraça arisca e bom coração. A centelha de sua vocação saltou quando começou a se sentir atraído pelo relato de histórias de missionários. Formou-se como perito (como muitos dos jovens artífices do crescimento econômico da Itália dos anos sessenta) e foi para a Inglaterra para aprender inglês para se preparar para a missão, que começou em 1971 em Kitgum, território acholi, periférico e complicado, como responsável técnico do hospital. Foi ali que começou no final dos anos setenta a presença de voluntários de CL, sobretudo médicos italianos, com os quais o movimento em Uganda começou a crescer. Em 1986, Elio foi destinado a Gulu, uma cidade maior, de 150.000 habitantes, a cem quilômetros de Kitgum. Lá assume a direção técnica do St. Mary Lacor Hospital, criado pelo casal Piero e Lucille Corti, e também graças a ele se tornou o hospital mais importante e avançado do norte do país.

As etapas de sua vida sucedem-se ao ritmo de seu “sim” à provocação da realidade, às circunstâncias com as quais tem que enfrentar. Ao chegar a Gulu, a guerra civil eclode. Um dia o avisam de que em um campo de refugiados os rebeldes tinham causado um massacre, sequestrando mulheres e crianças para torná-las escravas sexuais e soldados. Ele se colocou em ação e em um grande espaço aberto se deparou com o horrendo espetáculo de sessenta mulheres massacradas junto a suas crianças a base de golpes. Dezesseis delas ainda estavam vivas. Levou-as ao hospital, oito se salvaram. O hospital “de excelência” se tornou um refúgio para as pessoas que tinham sido deslocadas, que fugiam dos sequestros e estupros. Quando a noite começava a aparecer, milhares de crianças chegavam depois de percorrer dez quilômetros de distância para dormir neste canto mais seguro. Logo saíam pela manhã: night commuter, viajantes da noite, eram chamadas. «Chegamos a abrigar 32.000 em uma noite», recordou o Irmão Elio em uma entrevista, «um tapete humano que cobria todo o espaço, varanda, pórtico, gramado e toldo...». Toda noite, às oito, rezavam o terço todos, de qualquer etnia ou religião, rezavam juntos à Nossa Senhora pela paz.

Outra grande provocação para Elio foi Bernadette, uma mulher acholi, viúva, que em 1982 começou a recolher órfãos, não só de sua etnia, mas também dos adversários. E por isso a respeitavam. Bernadette pediu ajuda a Elio para construir abrigos onde as crianças pudessem viver. Elio disse “sim” e nasceu o orfanato, ao qual chamaram “casa”, uma morada familiar, St. Jude Children’s Home.
Em 1992 morre Bernardette e brother Elio se encontra com uma pesada herança que não queria. Mas volta a dizer “sim” e a leva sobre seus ombros. Essa obra abriga hoje 90 crianças, 20 a 30 com necessidades especiais, em pequenas casas e alojamentos que Elio mandou construir, cada uma delas acolhe uma média de oito, com uma cuidadora que não é a mãe biológica, mas que é mãe em todos os outros sentidos.
Logo surgiu a escola para estas crianças, e também para as das cidades vizinhas. Só no primário são 450 alunos. Também há a granja, vários hectares de terreno cultivado que, embora não gerem muito lucro, aliviam os gastos da casa, proporcionam empregos e oferecem formação profissional.

Para narrar a epopeia da caridade que supõe a vida de brother Elio, uma enciclopédia não seria suficiente. Então deixemos que as testemunhas falem.
Josephine Ogweda, subdiretora do St. Jude Children’s Home: «Crescemos seguindo este homem, sempre em caminho, nunca se cansava, com um coração disponível para acolher qualquer pessoa. Sua presença paternal era imponente para todos».

Anna Rita Corciulo, gerente de programas do orfanato: «Para qualquer um, o irmão Elio era uma testemunha do amor de Deus. Encontrar-se com ele sempre suscitava a mesma pergunta: “Como ele pode ser assim? De onde vem esse dom que lhe permite esperar e tratar os outros sempre com caridade?».

Alfred Opiyo, 35 anos, engenheiro, dono de uma loja de ferragens em Gulu: «Meu pai foi assassinado quando eu tinha cinco anos. Um dia me falaram de um Irmão comboniano que ajudava os órfãos contanto que eles estudassem. Decidi ir conhecê-lo. Tinha 14 anos. Era segunda, 13 de dezembro de 1999, e naquela manhã, diante de sua casa, havia um monte de gente que queria falar com ele. Ele escutou a todos nós, e a todos ofereceu um trabalho a fazer ou uma ajuda. Ainda recordo suas palavras: “A sua vida é como um ovo em suas mãos. Você é quem tem que cuidar dele. Não existe honra alguma na preguiça”».

Martin Oyat, um ex-residente do St. Jude, atualmente responsável pelo armazém e pelo moinho da granja: «Discutia muito com ele, quase até brigava com ele. Mas ele nunca guardou rancor de mim, sempre estava disposto a voltar a me abraçar. Educou-me para ser quem eu sou agora: dou catequese e, em plena pandemia, decidi me casar».

Patrick Onencan sofre de uma forma grave de artrite reumatoide que há anos o obriga a estar de cama: «Para aliviar as minhas dores, Elio me ajudava com a compra de remédios, ligaduras e comida. Em troca, me pedia que oferecesse a minha doença pela conversão do mundo inteiro. Conhecendo a minha devoção por São Pio de Pietrelcina, comprou para mim um pequeno televisor para acompanhar os momentos de oração. Com ele aprendi a viver perdoando e amando».

Vito Schimera, cirurgião do Hospital Lacor, com dois filhos nascidos em Kitgum: «Elio era a personificação de ser “como crianças” no sentido evangélico. Ele ficava maravilhado com tudo. Não teria tido a mesma capacidade de construção se não tivesse mantido essa atitude original de criança. Ficou fascinado com o livro O brilho dos olhos de Julián Carrón e pediu vários exemplares para distribuí-los».

Samuele “Sasa” Rizzo nasceu em 1978 em Kitgum, sua esposa é ugandense e tem dois filhos nascidos em Gulu: «Tive o privilégio de dez anos de amizade. Tomava café com Elio aos domingos depois da missa, via como ele tratava as crianças quando fazíamos caritativa no orfanato. Eu era um principiante, e ele uma referência para a minha vocação tanto pessoal quanto profissional. Com ele via a caridade em ação – um amor inexplicável se não fosse pelo amor a Cristo – que eu desejava aprender».

Então chegou a pandemia. Brother Elio passou os primeiros meses incólume. Mas depois, Seve (Matteo Severgnini, diretor da Luigi Giussani High School de Kampala) recebe uma mensagem de Elio: «Fizeram-me o teste de Covid. E deu positivo. Demos graças a Deus». Como pode dar graças a Deus? Só compreende isso mais tarde, quando se recuperou de sua perplexidade inicial: «A grandeza de Elio não estava em sua capacidade para construir, mas em sua vontade de obedecer».

Em novembro chega a prova final para Elio. Suas duas últimas mensagens foram: «Entregue à Sua santa vontade» e «Totus tuus» (Todo teu). Tudo foi cumprido, tudo ficou claro. Expressava isso muito bem um homem acholi que, na missa de sufrágio, disse: «Se alguém me perguntasse como é possível seguir a Cristo hoje, para mim a resposta seria fácil: seguindo um homem como Elio».