Passos

Passos N. 232, Janeiro/Fevereiro 2021

Esperamos apenas no presente

“A esperança é uma certeza no futuro em virtude de uma realidade presente”. É possível repetirmos tal frase hoje em dia sem sermos considerados ingênuos ou atrevidos? Ao ler uma a uma, estas palavras de Dom Giussani são um feixe de luz no denso nevoeiro. Vêm ao nosso encontro no início de um ano que começa cheio de incertezas: cada impulso natural decaiu colidindo com a segunda onda da Covid, ameaçado pela terceira. Há muitas pessoas sofrendo nos hospitais, há aqueles que perderam seus entes queridos sem poder se despedir, vemos o desemprego aumentar, ou mesmo quando tudo vai bem existem aqueles que sentem a inadequação das coisas. Em alguns países do mundo a pandemia não é a maior provação.

Depois de um 2020 que foi definido pelas estatísticas como “o ano do medo”, mais ainda procuramos pessoas em quem o medo tenha sido superado. Quando tudo parece interpretável, esta é uma experiência inconfundível. O acontecimento de fatos, talvez pequenos, não clamorosos, mas que nos libertam do laço da insegurança. E o que importa é ver pessoas para as quais o desejo renasce, para as quais “esperança” não é uma palavra cheia de futuro, mas cheia de presente.
Na edição de Passos deste mês vocês encontram relatos de pessoas que olham para o amanhã com a certeza de que nada acaba em nada, não pelas próprias forças, mas por causa de um encontro, como Erik Varden, recém-ordenado Bispo na Noruega, Mireille Yoga (que aparece na foto da capa) e os seus meninos de rua de Camarões, e a amiga de Taipei para quem a vida é um chamado, mesmo quando enferma. Também quisemos publicar como contribuição ao caminho pessoal de cada um a assembleia online realizada por ocasião do retiro de Advento no Brasil. Experiências que falam sobre o despertar do eu.

O início é possível graças ao impacto com homens comuns fora do comum. Com aquele “grão de trigo cristão” que se precipita no mundo, como escreve o grande teólogo Hans Urs von Balthasar, no mesmo trecho do qual tiramos o título da nossa capa: “Porque para o mundo só o amor é digno de fé”. Nada desafia mais a liberdade do que ver uma pessoa em quem é realizado aquilo que almejamos.