Miryam com a irmã Zumoruod

«O nosso refúgio»

Ela provocou admiração com o vídeo em que perdoava os homens do Estado Islâmico. Depois de três anos, MYRIAM e sua família ainda vivem como refugiados em Erbil. Eles nos contam sobre a vida no acampamento, as provações, e uma decisão: permanecer no Iraque
Maurizio Vitali

A pequena Myriam estava há alguns meses vivendo com sua família em Erbil, no campo de refugiados de Ankawa, quando provocou admiração no mundo todo com uma entrevista televisiva em que perdoava os perseguidores do Estado Islâmico, por amor a Jesus. Qaraqosh, a cidade onde viviam, fora tomada de assalto, em 2014, e devastada pelos jihadistas, causando o massacre da população (cristã) e o êxodo dos que conseguiram fugir.
No vídeo daquela entrevista à Sat7 (TV cristã do Oriente Médio), Myriam diz que não está enraivecida com Deus pelo que aconteceu. “Eu agradeço a Ele, porque se preocupa com a gente, nos ama a nós todos, não só a mim. Deus ama a todos”. Inclusive aos homens do Estado Islâmico. “Só fico triste porque nos mandaram embora das nossas casas. Por que fizeram isso?”. Deseja muito rever sua amiga Sandra, de quem não tem mais nenhuma notícia. “A gente gostava muito uma da outra, se perdoava a toda hora”. “Espero que você retorne logo para sua casa”, lhe diz o jornalista. Myriam responde séria: “Se Deus quiser. Não o que nós queremos, mas o que Ele quiser, porque Ele sabe do que precisamos”.

A preparação da primeira missa após a libertação, em uma igreja de Qaraqosh, a 30 km de Mosul

Agora Qaraqosh foi oficialmente libertada. Myriam e os seus, porém, permanecem no campo de refugiados. Até o momento, pouquíssimos retornaram para suas casas. O fato é que, em outubro do ano passado, o exército iraquiano entrou na cidade expulsando os guerrilheiros jihadistas. Mas Qaraqosh continua muito insegura, onde é praticamente impossível viver: ao redor dos povoados ainda balança a bandeira do Estado Islâmico; terroristas e atiradores ainda se escondem por entre as ruínas das construções; luz e água foram restabelecidas; ou melhor, remendadas, mas faltam completamente os serviços essenciais, inclusive escolas e hospitais.

Myriam agora tem quase 13 anos, frequenta a escola em Erbil, a três quilômetros do campo, muito meritoriamente mantida ativa pelas Irmãs Dominicanas. A irmãzinha de Myriam, Zumoroud, também vai à escola. Mamãe Alice e papai Waleed estão sempre procurando algum pequeno trabalho – ocasional, porque outro não há – para acrescentar algum dinheiro à pequena mesada (equivalente a 8 dólares) fornecida – mas ainda provisoriamente – pela World Vision International. A mãe, no âmbito da escola das freiras, faz algumas traduções, mas é pouca coisa.

A família de Myriam na casa-contêiner em Erbil

A comida é fornecida pela organização para os refugiados. Moram num contêiner, de mais ou menos seis metros quadrados, no qual vivem as quatro pessoas; mas têm sorte, porque em geral no mesmo espaço costumam se acomodar seis pessoas. Há também uma televisão, que funciona quando não falta a eletricidade. E um aquecedor a querosene, que cheira mal, com o qual se aquecem no inverno, que é muito rígido; em compensação, no verão a temperatura chega a 50 graus.
Há também a possibilidade de as pessoas se conectarem à internet. E foi assim que pudemos nos comunicar, com a ajuda de Giacomo Fiordi, jovem amigo da família de Myriam, que foi várias vezes visitá-los quando trabalhava em Erbil como operador da Fundação Avsi, e continuou mantendo contatos regulares com eles.

Agora conseguimos vê-los, pela videocâmera do computador. Quatro rostos bonitos e sorridentes. Vivem numa caixa metálica, muito modesta. Um relógio na parede e um maço de flores vermelhas desenhadas indicam zelo com a ordem e apreço pelo belo. Em meio a uma vida dura e difícil, Myriam mantém aquele mesmo rostinho encantador que aparece na entrevista divulgada na internet, a mesma voz suave, os mesmos olhos profundos e bons. O fato de estar distante da sua casa e das amigas de então enche seu coração de amargura. A irmãzinha é muito parecida com ela. Está contente porque sexta-feira e domingo não têm aula, e assim “hoje descanso e brinco, as tarefas para fazer em casa ficam para amanhã”. Você não gosta de ir à escola? “Nem sempre. Em geral há muito barulho e às vezes passam tarefas demais”. E você não brinca? “Sim, com minha irmã. Especialmente jogando vôlei”.



Alice tem o vigor amoroso de uma mãe, na plenitude dos seus 40 anos. Waleed é um mistura de ternura e determinação. Aos 60 anos, está cansado com “essa situação em que vivemos, sem dinheiro e sem trabalho”, é tomado de indignação quando pensa nos vários corruptos espertos que “tentam ganhar dinheiro sobre a ajuda que chega aos cristãos”, mas curte como um menino os encontros e as verdadeiras amizades. Não são puros espíritos, essas pessoas, nem como aquelas figuras de santos com os olhos no céu e o pescoço reclinado. São pessoas fortes, cada um com o seu temperamento, com valores e limites humanos, em quem as asperezas da vida marcaram a pele e a alma, e as dores exauriram as lágrimas. É no coração de Deus, e em nenhum outro lugar, que está o verdadeiro refúgio dessa gente. É n’Ele que confiam totalmente. Nada abalou a fé deles, nem deturpou seu sorriso.

O voleibol é o jogo preferido de Myriam. No campo de refugiados há um espaço próprio para praticá-lo “Agradeço ao Senhor todos os dias porque não permitiu que fôssemos mortos e nos dá o que precisamos para viver, graças às pessoas que nos ajudam. Agora temos também energia elétrica e água corrente, e assim ficou melhor”. Com são os seus dias? “Eu levanto, faço minhas orações, e vou à escola: em geral me levam de carro e costumo voltar com minha mãe, que faz pequenos trabalhos na escola. Depois brinco com minha irmã, leio, estudo e faço as tarefas... Vou à missa todas as vezes que o padre vem, e tomo o pão de Jesus”.

E a sua amiga querida, Sandra, você voltou a encontrá-la? “Sim, eu a vi uma vez na televisão, e algumas vezes eu falo com ela no celular. Agora sei que está na França [a família dela emigrou e vive perto de Estrasburgo], mas não é fácil a gente entrar em contato. A última vez foi há dois meses. Isso me deixa muito triste”.

O diálogo via internet com Tracce

Alice nos mostra sorridente a pizza que está colocando na mesa. Parece boa. Mas preferiria cozinhar briani ou dolma, seus pratos iraquianos preferidos. Está contente por poder fazer algumas traduções – “graças a Deus” – embora esta seja a última semana de trabalho. Vocês esperam voltar logo para Qaraqosh? “Desejo de todo coração voltar para a nossa casa, mas não é possível, sobretudo porque é muito perigoso, e vivo com o medo no coração pelas nossas filhas. Aqui, Myriam e Zumoruod podem ir à escola e estão seguras, e para mim, como mãe, essa é a coisa mais importante”. Muitos outros imigrantes foram embora do campo. “Sim, mas quase ninguém retornou para Qaraqosh: emigraram para o exterior. Em todo caso, aqui somos sempre 5-6 mil pessoas, porque quando um contêiner é liberado, logo chega alguma família que estava em Erbil, vivendo em refúgios precários ou em abrigos que custam muito caro”. E como são as relações com seus companheiros de campo? “Muitos provêm, como nós, de Qaraqosh e com eles é mais fácil a gente se encontrar, se comunicar, compartilhar os problemas. Com famílias de outros lugares as relações são menos estreitas. Em geral nos entendemos bem, algumas vezes acontece uma desavença. Depois, porém, nos reencontramos na missa juntos, reunidos por Jesus, que quer que vivamos como irmãos. A Primeira Comunhão, para a qual muitos dos nossos filhos estão se preparando, também é uma graça para todos nós. As famílias estão compartilhando o caminho de aproximação e celebrarão o Sacramento juntas”.



Waleed está tentando obter os passaportes, para caso decidam sair dali. “Preparei todos os documentos, amanhã apresento o pedido e depois... precisamos rezar ao Senhor para que tudo tenha corra bem”. A Itália seria a meta de uma viagem e de encontros, mas não a terra para recomeçar a vida. Waleed não sabe se e nem quando poderá voltar para Qaraqosh, mas seguramente quer permanecer no Iraque. Gostaria de voltar à sua cidade para fazer uma inspeção, tão logo consiga a necessária permissão das autoridades, para dar uma olhada na casa, que “está de pé, não foi bombardeada, mas foi saqueada de tudo o que tinha”. Ir para o exterior é algo que está excluído. Depois da “famosa” entrevista de Myriam, Waleed foi contatado por meio mundo para dezenas de entrevistas e recebeu muitas ofertas para se instalar nos EUA, Canadá, Áustria, França. Jamais se interessou: está apegado à sua terra e à sua história; e sente que precisa obedecer a Deus que, através daquelas entrevistas, “me indicou a missão de relatar a real situação da minha gente perseguida”.

Alice e Waleed certamente teriam chance. Ambos são cultos, com ótimas experiências de trabalho, feitas num país que antes da guerra – como também a Síria – não tinha nada de subdesenvolvido e retrógrado. Ele é veterinário; ela, engenheira agrária. Empreendedores titulares de uma empresa agrícola de vanguarda, com vinte funcionários, e uma bela casa de trezentos metros quadrados, até que a devastação provocada na economia iraquiana pelas sanções os obrigou a fechá-la. De qualquer modo, continuaram a trabalhar como funcionários em papéis importantes, até a tragédia de Qaraqosh.
E agora, que não podem voltar para casa e que as organizações internacionais foram embora de Erbil, como farão? “Alguém nos ajudará. Rezamos a Deus para que nos ajude a nós todos”, diz Waleed. Você tem ideia de quando poderão voltar para Qaraqosh? “Não saberia dizer quando. Fiquei sabendo que o governo central está muito interessado em escolher funcionários, para restaurar o mais rápido possível a cidade. Mas quem sabe?”. Pensa em deixar logo este campo? “O futuro a Deus pertence, tudo está nas mãos d’Ele”. Está confiante? “Deus salvou as nossas vidas, nos dá um teto, comida, e até a igreja para participarmos da missa. Posso levar uma vida confortável ou uma vida de sacrifícios, mas sempre tenho fé em Jesus e ninguém poderá roubá-la de mim. E Deus jamais me fará mal”.