Papa Francisco

Carrón aos jovens de CL: «Vamos a Roma como mendicantes»

Nos dia 11 e 12 de agosto o Papa Francisco vai encontrar os jovens italianos para rezar pelo Sínodo de outubro. O Presidente da Fraternidade escreveu aos 740 estudantes que vão participar de uma peregrinação nesses dias. Aqui as suas palavras
Julián Carrón

Por que ir a Roma no meio do verão? Porque alguém nos convocou, o Papa. Não é algo que fomos nós que tiramos da cartola. Alguém em quem confiamos convidou-nos.
Quais são as razões para confiarmos? Temos de olhar para a nossa experiência. Foi o que nos recordou o Papa Francisco com «as palavras que certo dia Jesus dirigiu aos discípulos, que lhe perguntavam: “Rabi, onde moras?”. Ele respondeu: “Vinde e vede” (Jo 1,38-39). Jesus dirige o seu olhar também a vós, convidando-vos a caminhar com Ele. Caríssimos jovens, encontrastes este olhar?» (Carta aos jovens em preparação do Sínodo, 13 de janeiro de 2017).

O encontro com o Movimento foi, para cada um de nós, o deparar-se com um olhar carregado de promessas, numa proposta que percebemos como uma novidade, pois não coincidia com as imagens que tínhamos feito do nosso caminho. Pensemos nos discípulos, também a eles aconteceu o mesmo depois de terem encontrado Jesus: por que razão deviam seguir aquele homem? Seguiram-no porque correspondia às suas expectativas. Uma vez percebida esta correspondência, segui-la significou ir ao Seu encontro no dia seguinte e no outro dia também. E quanto mais crescia a certeza a Seu respeito, mais tinham o desejo e as razões para confiarem n’Ele e, portanto, para segui-Lo: levantavam-se de manhã sem saber onde ele poderia pensar em ir. Algum deles pode ter dito: «Por que não vamos ao rabino tal, que lê o Antigo Testamento, e assim nos aproximamos mais do Mistério? Por que o meu relacionamento com o Mistério tem de passar por ir pescar com este sujeito?». O que vocês teriam feito diante do convite para subirem num barco para ir pescar?

A realidade é a modalidade através da qual o Mistério me alcança e me convoca para que eu O siga. Em O senso religioso, Dom Giussani descreve assim esta dinâmica: «Por toda a vida […] estar suspenso ao aceno deste “senhor” desconhecido, […] o homem, a vida racional do homem deveria estar suspensa ao instante, suspensa a cada instante ao sinal aparentemente tão volúvel, tão casual, que são as circunstâncias através das quais o desconhecido “senhor” me arrasta, me provoca para o seu desígnio […], simplesmente aderindo à solicitação das ocasiões. É uma posição vertiginosa» (O senso religioso, Paco Editorial, Jundiaí 2017, p. 205), insustentável para nós. Por isso, o senhor desconhecido tornou-se carne num homem que se movia de um modo imprevisível, que não coincidia com o que imaginavam aqueles que o encontraram, e que talvez tenham pensado: «Hoje eu deveria ter ido pescar, porém Ele me diz que devemos ir a Cafarnaum». Imaginem quantas vezes deve ter acontecido isso aos apóstolos! E é fantástico poder lê-lo nos Evangelhos, porque assim podemos entender o que é o Cristianismo: um Fato que entrou na história e que se torna concreto nas circunstâncias, naquela época, e também hoje.
Claro, cada homem pode imaginar uma modalidade para entrar em relacionamento com o Mistério, e isso faz parte da dinâmica do senso religioso: uma tentativa de construir uma ponte para alcançar o desconhecido senhor. Mas aconteceu algo que revolucionou o método: há uma outra modalidade – mais simples, mais audaz, mais bonita, mais razoável – para se relacionar com o Mistério, e é o encontro com uma diversidade humana – na escola, na universidade, no trabalho − que O torna presente no presente. E esta modalidade está ao alcance de todos, mas só os simples a reconhecem. O simples é aquele que, encontrando-O, imediatamente se dá conta de que se abriu um outro file, e que aquele Cristo que encontrou não é um dos muitos deuses que estão no Panteão imaginado pelos homens de todas as épocas.

Por isso devemos voltar sempre aos episódios do Evangelho. Imaginem que vocês são Marta ou Maria: é melhor ocupar-se com a arrumação da mesa ou ficar ouvindo Jesus? E se por acaso fosse sua tarefa servir, ficaria se lamentando por isso? Se você estivesse em um almoço com Jesus, não gostaria de servir aquela presença excepcional? Ficaria honrada em fazê-lo! Somente se percebermos as razões poderemos apreciar tudo o que fazemos. Caso contrário, lutaremos sempre com imagens que estão na nossa cabeça e precisaremos apagar da nossa memória tudo o que vivemos. Por isso é fantástico que, depois de tudo o que vocês viveram nestes anos, ao convidá-los para ir a Roma para encontrar o Papa, o Senhor coloque cada um de vocês diante da grande pergunta que dirigiu a Pedro às margens do lago, naquela manhã em que tinha assado peixe para Seus amigos: «Tu me amas?». É muito bonito que vocês não se poupem desta pergunta, precisamente neste momento de suas vidas.
Vocês são amigos por isto, para se ajudarem a responder, pessoalmente e com simplicidade, à pergunta de Jesus. E não há maior gesto de amizade entre vocês do que ir atrás d’Aquele que os leva ao destino. Se não geramos relacionamentos que chegam neste nível, com pessoas com quem iríamos até ao fim do mundo – porque a única razão pela qual estamos juntos é esta: caminhar em direção ao destino –, eu os desafio a verificar quanto tempo durarão suas amizades.

Qual é o rosto deste destino, hoje? Voltemos ao ponto de partida: qual é o rosto de Cristo, hoje, para nós, segundo uma imagem que não seja ditada por aquilo que “pensamos” d’Ele? A Sua face hoje nos alcança através do gesto da peregrinação a Roma, ao qual somos chamados por Cristo presente na história através do Seu vigário, o Bispo de Roma.
A modalidade através da qual o Mistério chama você é um fato histórico, uma circunstância muito concreta: neste momento, o guia estabelecido por Cristo como referência de autoridade última para a nossa vida de fé, ou seja, o Papa, convoca-nos a Roma. Neste verão, o Mistério indaga vocês através desta modalidade e Ele saberá como ajudá-los a responder às perguntas que têm sobre o futuro – penso, sobretudo, naqueles que terminaram o segundo grau e a universidade.
Somente seguindo este método posso me preparar para enfrentar o futuro, porque o Mistério me oferecerá os sinais para encontrar meu caminho. Mas só o encontrarei permanecendo mergulhado neste lugar que é o Movimento dentro da Igreja, porque só assim Cristo determinará de tal forma o meu modo de olhar, que começarei a ver. «Foi olhado, e então viu», diz Santo Agostinho sobre Zaqueu. Somente se estivermos literalmente “de molho” num lugar onde Cristo reacontece constantemente, podemos fazer experiência de um conhecimento do real que nos permite captar os indícios através dos quais o Mistério torna claro qual é o nosso caminho; caso contrário, será impossível ver aquilo que está debaixo do nosso nariz.

Os discípulos só puderam entender mais o que é a vida, o que é a vocação, indo atrás do relacionamento com Jesus, que fazia surgir com uma clareza cada vez maior quem eles eram e quem podia responder aos seus corações. E assim conquistaram um olhar suficientemente amplo para reconhecer os sinais da vocação. Damo-nos conta da novidade que Cristo introduziu na vida?
Quando não percebemos que tudo se esclarece seguindo a Sua presença, nossa vida começa a se complicar. Em que consiste o problema da afetividade? E o do futuro? E o da vocação? Tudo se joga na relação com um lugar onde Ele se torna presente. Por isso, eu só posso ter um conhecimento verdadeiro, novo, original, aberto a tudo, se viver em contemporaneidade com Cristo. Ir a Roma é uma modalidade através da qual Cristo se torna contemporâneo a cada um de vocês.

Nossa única certeza é a de que se não formos atrás d’Aquele que encontramos, todas as nossas certezas vão ruir, uma atrás da outra. A certeza não tem a ver com qual curso farão, qual trabalho irão encontrar ou com quem irão se casar. E se você já tiver preparado os convites do casamento, escolhido o restaurante e o menu da festa, o que vai fazer com tudo isso se lhe falta Ele?
Uma peregrinação é sempre um gesto de mendicância. Por isso, vamos a Roma como mendicantes, para que Cristo coloque Sua mão em nossa cabeça. O que precisamos é aprender o sentido do Mistério, que se comunica no tempo através de um ponto histórico concreto e que nos chama a segui-Lo, ir atrás d’Ele. Convém a vocês seguir ao invés de submeter a presença histórica de Cristo ao crivo de sua medida, decidindo vocês “como” Ele deve tornar-se presente em suas vidas. Não se comportem como Pedro que, diante do convite de Jesus «Vamos para Jerusalém, onde o Filho do homem deverá sofrer», reage de forma brusca: «Tenha Deus compaixão de ti, Senhor! Isso de modo algum te acontecerá!» (cf. Mt 16,21-23), colocando Jesus no banco dos réus.

Por isso, indo ao Papa, peçam, mendiguem o conhecimento novo que Cristo prometeu a quem o segue com a simplicidade de uma criança. Como diz São Paulo, nós nem sabemos o que pedir. Com o desejo de ter uma postura de mendicância, peçam a Cristo: «Dá-me até mesmo esta postura, porque sozinho não consigo tê-la». Por isso começamos todos os gestos do Movimento pedindo o Espírito, porque é o Espírito que vem em nosso auxílio – diz São Paulo – para nos dar aquilo que nem sequer podemos imaginar, para nos colocar naquela posição de pergunta que nos permite reconhecer a resposta quando ela chega. Como veem, não podemos dar nada por óbvio, nem nem mesmo o fato de termos esta postura. Porque até mesmo a postura de pergunta é fruto de um encontro, como nos testemunha o Inominado de Manzoni; ao Cardeal Federigo, que lhe pergunta: «Voltareis, não é verdade?», responde: «Se voltarei? […] Mesmo que vos recusásseis a receber-me, eu ficaria obstinado à vossa porta, como o pobre» (Os noivos, Paulinas, Lisboa 2015, pp. 429-430). Quanto mais cresce a familiaridade com Ele, mais emerge com clareza a nossa pobreza e Quem responde.

A peregrinação a Roma fará com que vocês aprofundem ainda mais tudo aquilo que viveram nestes anos. Um gesto como este educa mais do que muitos discursos que poderíamos fazer. Por isso: boa verificação, com os votos de que façam a experiência do cêntuplo.